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Unidades de conservação são parte da solução

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Por Angela Kuczach*

Sobrevoando a Serra do Espinhaço, em Minas Gerais... lá embaixo, o que se vê através das nuvens é um Brasil recortado. A colcha de retalhos vista do alto representa parte dos 80% do Cerrado que já foi alterado, principalmente a partir da década de 1960, com a expansão da fronteira agrícola sobre esse bioma. Os 20% restantes, ainda existem graças ao relevo acidentado em algumas partes e a presença de unidades de conservação, que hoje respondem a pouco menos de 10% do bioma.

Se na história do Brasil levamos quase 500 anos para destruir mais de 90% da Mata Atlântica, num primeiro momento a constatação de que no Cerrado levamos pouco mais de 50 anos para destruir a maior parte dos 80% já dizimados parece espantosa. Não de fato quando olhamos os avanços tecnológicos do último século. Se prestarmos atenção, o que vemos na Amazônia hoje é um espelho. O mesmo acontece nos outros biomas: Caatinga, Pampa, a Floresta com Araucária do sul e mesmo o santuário da vida selvagem do Pantanal. Onde hoje a tecnologia permite o uso, a natureza recua.

Não obstante, muito do que ainda resta do Brasil natural está nas unidades de conservação. A constatação pura e simples da nossa história já deveria ser motivo suficiente para que essas áreas fossem reverenciadas. Mais forte ainda é a constatação de que a manutenção dessas áreas, mais do que a conservação intrínseca da biodiversidade, é a garantia da nossa sobrevivência: serviços ambientais, garantia de chuvas, fertilidade do solo, qualidade da água... nada disso seria possível sem os ambientes naturais. E eles só existem hoje – em sua maioria – graças a existência das UCs.

Apesar disso, e abaixo das nuvens, o que acontece é o contrário: UCs ainda são um bicho-papão. Incompreendidas até no nome, estão longe de cair no gosto popular. E não se conserva aquilo que não se conhece... o eterno ciclo vicioso.

Tidas como um passivo, nossas UCs hoje não dão lucros financeiros para a nação. Ao contrário, sequer se sustentam. Diferente de países como os Estados Unidos, onde as áreas protegidas geram 1,8 bilhões de dólares por ano, aqui sequer atingimos a marca dos R$100 milhões de reais, em cerca de 75 milhões de hectares de áreas protegidas.

Bom, lá o governo investe aproximadamente 156 dólares por hectare, enquanto aqui não chegamos sequer à 3 reais/hectare por ano. Com isso, o potencial de geração de R$168 bilhões (de acordo com estudo lançado recentemente pelo Instituto Semeia) está a anos luz de ser alcançado. Dinheiro escorrendo pelo ralo... culpa de quem?

Como reflexo dessa política de governo (ou falta dela) que insiste em não incluir as UCs no Plano de Desenvolvimento Econômico, ao contrário, considera essa e qualquer outra estratégia de conservação um entrave ao desenvolvimento, quando muito uma medida paulatina... um hobby, uma benevolência quase filantrópica, nosso patrimônio natural, longe de se apresentar como o belo cisne que é, ainda é tido como um patinho feio.

Na prática, o resultado é uma dificuldade sobre humana para se garantir o mínimo. O trabalho hercúleo feito por meia dúzia de rebeldes, que teimam em enxergar mais longe do que a tacanhez apresentada por nossos políticos. E se faltam soluções e recursos, sobram conflitos. No Estado de Minas Gerais, por exemplo, um mapa de 'conflitos entre UCs de Proteção Integral e uso tradicional' se sobrepõem em praticamente 100% das áreas. Quando falta a presença do Estado para resolver o básico e proporcionar condições mínimas aos cidadãos, qualquer tipo de presença vira o alvo dos descontentamentos. Comumente, nos rincões ermos desse nosso imenso país, o único representante é uma UC.

Ainda olhando para a Serra do Espinhaço, onde atualmente uma das suas principais unidades de conservação, o Parque Nacional das Sempre-Vivas, é alvo desse tipo de situação, me pergunto se houvesse uma política social realmente adequada de desenvolvimento e que colocasse as UCs, inclusive as categorias mais restritivas, como parte importante desse processo, empoderando-as como as geradoras de riquezas que são, tornando-as aptas à geração de empregos por meio do turismo, e levando renda para a população de entorno, se teríamos palco para esse tipo de conflito? Em geral fomentado pelos árduos defensores das causas sociais que miram nas UCs, esquecendo-se de olhar um pouco mais acima, onde realmente mora tanto o problema quanto a solução. Duvido muito.

Me pergunto também onde estaremos daqui há 50 anos? Com uma população ainda crescente, uma política de desenvolvimento que privilegia o curto prazo e o interesse de uma minoria, potencializado ainda por ser considerado um dos países com maior índice de corrupção do mundo e um investimento em conservação da biodiversidade que beira ao ridículo, as UCs, diante desse quadro, serão cada vez mais pressionadas.

A luz das eleições disputadíssimas que tivemos – um claro recado de descontentamento - e a inominável crise de abastecimento da grande São Paulo, o que esperamos, entre outras coisas, é que a conservação da natureza seja levada um pouco mais a sério, e que seja tratada como aquilo que realmente significa: garantia de qualidade de vida para a sociedade. Não se pode sonhar com condições adequadas de abastecimento se não houver nascentes bem conservadas. Também não adianta querer que o Brasil bata recordes da safra se não chover! E para que isso aconteça é preciso ter natureza conservada! Uma conta simples, certo?

O Brasil que queremos passa por uma profunda transformação, e a conservação da natureza com a sua ferramenta mais eficiente. As unidades de conservação não podem ser tratada como tema periférico e muito menos como entrave ao desenvolvimento, como alguns setores insistem em colocar. As unidades de conservação precisam urgentemente sair da UTI, serem resgatadas, receberem investimentos adequados e passarem a compor o centro das discussões, como aquilo que realmente são: oportunidades! Estamos perdendo biodiversidade, recursos e possibilidades de ganhos para a sociedade por pura falta de visão e planejamento.

É esse o legado que vamos deixar?

Eu acho que queremos bem mais. 

*Angela Kuczach é bióloga e diretora executiva da Rede Nacional Pró Unidades de Conservação.

 


Fonte: O Eco, colaboração por Ronilson José Paz.


 

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