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O papel da sociedade civil no acordo climático assinado por EUA e China

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Por Amelia Gonzalez

Estamos numa era orbital, diz o filósofo francês Jean Baudrillard*. Das informações ao capital financeiro, tudo orbita em torno do homem atual. Sentado em frente à máquina de computação, ele segue sendo levado por viagens que, na verdade, muitas vezes apenas dão voltas em seu território cercado.

Foi assim nesta quinta-feira (13), quando o mundo das comunicações se exaltou com a notícia de que um robô conseguiu pousar num cometa em movimento e, na quarta (12), com o anúncio de um acordo para reduzir a poluição emitida por duas nações potentes – China e EUA. Pelas câmeras europeias, assistimos repetidas vezes ao feito espacial. Pelas câmeras asiáticas, vimos o presidente Obama e o presidente Xi Jinping apertarem as mãos firmando um compromisso para diminuir a sujeirada que as fábricas e os habitantes de seus países lançam no ar e que está sufocando os seres vivos que habitam o planeta. A nós, resta pensar – ato que Hannah Arendt chamava de “diálogo silencioso entre eu e eu mesma”.

Assim, lanço-me destemida à reflexão, e convido vocês para me acompanharem. O convite vem junto com algumas informações que podem ser úteis para o debate. Primeiro, sobre o acordo em si. Vale voltar a ele porque estive num diálogo virtual com alguns amigos que fiz, habitantes de países bem diferentes, durante recente viagem à Alemanha (veja aqui) . Um deles, canadense, enviou-me um texto do analista de mercado John Kemp publicado pela agência de notícias Reuters no Reino Unido, que põe luz sobre alguns bastidores do acordo que certamente vai movimentar bastante o mundo ambientalista nas próximas semanas.

589bEm resumo, na opinião do analista, o presidente Obama precisava de uma declaração ambiciosa para tentar fazer diferença e mostrar que a competitividade de seu país não estaria comprometida com medidas para baixar as emissões. Por sua parte, o presidente Xi Jinping conseguiu, com sua declaração, boa vontade e concessões dos Estados Unidos em outras partes da agenda da reunião da Apec (Asia-Pacific Economic Cooperation), onde se deu o anúncio. Toma lá, dá cá – é assim mesmo que se negocia.

E se tudo der certo? Se o acordo entre China e Estados Unidos deflagrar uma atitude universal e todos os países decidirem mesmo diminuir os gases de efeito estufa e assinarem um acordo histórico na COP-21, ano que vem, em Paris, o que terá que mudar?

Os combustíveis fósseis estariam com os dias contados. Para isso, será preciso investir muito em fontes renováveis de energia. E convencer alguns governantes céticos, como o primeiro-ministro da Austrália, Tony Abbott, de que isso, sim, é o melhor para a humanidade. Essa tarefa é fácil para a sociedade civil. Nesta quinta (13), manifestantes fizeram um ato em Bondi Beach, Praia de Sidney (Austrália), para protestar contra a omissão do seu governo em relação às mudanças climáticas. E outro amigo da turma que foi à Alemanha, australiano, enviou-me a foto com a mensagem: "Nós, aqui na Austrália, estamos esperando que acabe o discurso de que a China não está fazendo sua parte na mudança do clima. E agora somos o único olhar estúpido a essa questão".

Mas, para além disso, a indústria como um todo terá que repensar seu modo de produção. As montadoras de automóveis precisarão investir pesado em outros modelos. Os governos vão ter que multar quem poluir a mais. E isso tudo vai gerar uma tremenda mudança na economia. Com menos produção, não necessariamente haverá desemprego se os operários toparem uma nova forma de trabalho. Nesse sentido, já há proposta do bilionário Carlos Slim (veja aqui) e da equipe da The New Economics Foundation, sobre uma rearrumação na semana de trabalho. A ideia é encurtar para três dias, o que ajudaria a redistribuir trabalho para os desempregados, ao mesmo tempo que propicia mais tempo de lazer (ócio criativo?) para todos.

Desmatamento

Se o desmatamento é um dos maiores inimigos da economia limpa, é preciso cuidar para que ele não aumente. Entre 2004 e 2011, segundo dados do Imazon, o Brasil reduziu 77,5% o desmatamento, o que é muito bom. Mas é preciso também recuperar áreas degradadas, que hoje estão em cerca de 24 milhões de hectares.

Pelo resto do mundo, os últimos dados dão conta de um desmatamento de 170 mil quilômetros quadrados por ano. Na Cúpula do Clima que aconteceu em setembro em Nova York, houve a proposta de reduzir esse número pela metade até 2020 e zerá-lo até 2030. Mas é preciso ficar claro: este é um esforço conjunto que deve envolver empresas, governo e sociedade. O cidadão comum precisará se educar para comprar móveis só de madeira certificada. Ou para não comprar, quem sabe reciclar aquele velho armário?

A mesma coisa na hora de trocar de carro. A civilização de uma economia de baixo carbono exige que se repense o ato de consumir, da carne ao carro, passando pelo móvel e pela roupa. O menos tem que ser mais. De empresas, de governos, de cidadãos.

Dito assim, parece que estamos falando de um mundo distante do verdadeiro dia a dia, pelo menos do brasileiro. Mas já tem muita gente pensando a esse respeito seriamente, trazendo novas perspectivas. Não é apenas dar preço para tudo o que for da natureza, como querem os que defendem a “economia verde”. Precisa incluir nesse pacote de mudanças aquelas pessoas que não estão participando das decisões nos gabinetes aclimatados, mas de quem vai depender muito do sucesso da empreitada.

Diálogo

Em junho estive no Arquipélago do Bailique, no Amapá (veja aqui) , acompanhando de perto o trabalho da Rede Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) para garantir aos moradores daquela região tão rica em recursos naturais, em pessoas, e tão distante dos centros de comando e controle, uma participação efetiva na conservação da biodiversidade e na utilização sustentável de seus componentes. Posso garantir que não é uma tarefa muito fácil. Só para se ter uma ideia, eles estão agora reunidos para organizar um segundo encontro de todas as comunidades que vai acontecer em dezembro.

Esse diálogo com a ponta da cadeia é imprescindível, seja em que país for, para que não se fique falando de um mundo irreal, de acordos feitos num palco, de metas inatingíveis e, por isso mesmo, de difícil previsão sobre o futuro. Sem conversar com índios, quilombolas, ribeirinhos, os chamados povos da floresta, não dá para se ter uma ideia real sobre o que será necessário fazer para alcançar os desafios impostos em cúpulas e conferências. 

Lembrei-me de uma entrevista que a repórter Martha Neiva Moreira, do Razão Social**, fez em 2012 com a geógrafa Bertha Becker (morta no ano passado), exímia conhecedora da Amazônia. Becker criticava muito severamente o que chamava de “mercantilização da natureza”, e dizia ser imprescindível que se pensasse nas diferenças regionais, não em generalidades.

“O que é bom para a Europa pode não ser bom para o Brasil. Também não entendo como a venda de créditos de carbono por empresas privadas pode ajudar a reduzir a pobreza”, alertou ela na entrevista.

É disso que não se pode esquecer. Nada do que está sendo negociado entre líderes, nenhum acordo global de baixar emissões, será válido se não levar em conta o homem. E para levar em conta o homem é preciso pensar em desigualdade social, em como se livrar desse câncer que mina e expõe quase ao ridículo, aos olhos de quem passa fome, qualquer mega iniciativa de não poluir mais o ar. Senão, vira um jogo de regras flutuantes e arbitrárias.

* Em “A transparência do mal – ensaio sobre os fenômenos extremos”, (Papirus Editora)
** Caderno sobre sustentabilidade editado no jornal “O Globo” de 2003 a 2012

Fotos:
Ato sobre danos ao clima na Austrália (350.org/Tim Cole/AFP)
Presidentes dos EUA, Barack Obama, e da China, Xi Jinping, em Pequim. (Mandel Ngan / AFP)

Fonte: G1 - Nova Ética Social.


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