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Brasil e Argentina precisam de alerta contra inundações

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555A Argentina também possui tristes histórias de inundações. A mais grave ocorreu em 2003, em Santa Fé: em cinco dias choveu 1400ml, afetando mais de 130 mil pessoasResultado das transformações já em curso no clima, as tempestades e chuvas fortes serão cada vez mais frequentes nos dois países

COPENHAGUE - Alvos de tempestades e inundações intensas, Brasil e Argentina precisam urgentemente adotar sistemas de alerta para permitir a retirada em tempo da população afetada e evitar tragédias, alertou o meteorologista argentino Vicente Barros, copresidente do Grupo de Trabalho sobre Adaptação do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC). Resultado das transformações já em curso no clima em todo o mundo, as tempestades e chuvas fortes serão cada vez mais frequentes na região.

Ao Estado, Barros explicou ser necessária a criação de modelos hidrológicos, com observação em tempo real, que permitam previsões desses fenômenos e projeção do que pode acontecer em solo. Esse conjunto de informações permitirá às forças de segurança e à defesa civil agir nas localidades a serem afetadas. Os próprios habitantes podem se antecipar, ao ser emitido o alerta, e deslocar-se para abrigos. A ação das autoridades, porém, terá de ser muito mais expedita.

"A dificuldade desse sistema de alerta está no fato de as previsões de tempestades na nossa região não se darem com muito tempo de antecedência nem com a precisão necessária sobre o lugar em que cairão. A certeza chega pouco antes da chuva. Uma vez detectada, todos terão de agir rapidamente", afirmou. "As tempestades na nossa região aparecem de um momento ao outro. Não são como os ciclones tropicais do Caribe, esperados com vários dias de antecedência", explicou.

Barros esteve envolvido na última semana na discussão sobre a síntese dos três mais recentes relatórios do IPCC. Os textos acentuam que a mudança climática já está em curso e, na medida que as emissões de gases do efeito estufa aumentem, seus impactos tenderão a ser mais graves. As tempestades e chuvas mais fortes e frequentes, as secas e as inundações são fenômenos com os quais boa parte do planeta terá de conviver. Medidas de adaptação serão requeridas cada vez mais para evitar catástrofes e sofrimento para as populações e os ecossistemas.

"O aumento de 2ºC na temperatura do planeta em 2100 já está aí", afirmou Barros, referindo-se à projeção mais otimista do IPCC, para o caso de os países zerarem suas emissões de gases do efeito estufa por volta de 2050.

Ondas de calor. Nas cidades do Brasil, da Argentina e dos demais vizinhos do Cone Sul, as ondas de calor tendem a piorar, tanto com temperaturas mais altas como com uma duração mais longa, alertou o meteorologista. Essas ondas não se restringirão ao período de verão. Há duas semanas, uma dessas ondas elevou os termômetros a 44ºC no Norte da Argentina. Em São Paulo, o aumento das temperaturas em vários dias de outubro passado e do último verão deu mostra do impacto cada vez mais forte das ondas de calor.

"Essas ondas podem causar a morte de pessoas. Mesmo os que têm condicionador de ar em casa podem ser afetados porque há risco de apagões elétricos", afirmou. "Os transformadores de energia não estão preparados para dissipar seu próprio aquecimento em condições de temperatura ambiente tão elevadas", explicou Barros.

O zoneamento urbano e das costas marítimas terá de mudar, segundo o especialista, para acompanhar as tendências de mudança climática. Áreas mais sujeitas a inundações e a deslizamento terão de ser desocupadas, assim como aquelas que tendem a ser definitivamente cobertas pelas águas, por causa do aumento do nível do mar. O poder público, nesse caso, tem demarcar as zonas que não podem mais ser habitadas. A Inglaterra, comentou Barros, já fez essa tarefa.

Agricultura e pecuária. Em países de forte produção agropecuária, como o Brasil e a Argentina, outras iniciativas de adaptação serão requeridas, como o desenvolvimento de sementes de grãos mais resistentes ao calor e a períodos de seca. Também serão necessárias novas formas de manejo da água. Barros explicou que, na Patagônia argentina, as geleiras dos Andes historicamente serviram como reguladores das águas dos rios. Mas tendem a perder essa função natural com o seu derretimento, provocado pelo aumento da temperatura no planeta. O mesmo vai acontecer em Lima, no Peru, e em La Paz, na Bolívia.

No caso da província patagônica de Mendoza, uma das maiores produtoras de vinho da Argentina, essa tendência pode afetar a economia local. A região é desértica, mas provida de rios. Historicamente, esses rios se tornavam mais caudalosos no verão, quando os vinhedos mais precisam de água. Agora, as geleiras começam a derreter no outono. "A solução será acumular água artificialmente, em reservatórios, nas zonas de montanha", explicou.

 

Fonte: Estadão.


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