Imprimir

Meio ambiente & evolução humana

. Acessos: 8503

60 12072013zEntrevista com Maurício andré Ribeiro*

“ó EspéciE humana, conhEcE-tE a ti mEsma E conhEcERás o ambiEntE E o univERso Em quE vivEs”. É com essa máxima que Maurício Andrés Ribeiro resume o espírito de Meio ambiente & evolução humana. Num tempo de transformações aceleradas que têm como principal agente o ser humano, o autor investiga com profundidade a interação da espécie humana com os ecossistemas naturais e a sua capacidade de transformar o ecossistema planetário de acordo com a sua inteligência, vontade, emoções e ambições.O Senac São Paulo convida o leitor a explorar novas possibilidades de consciência ecológica nesse 19º Volume da Série Meio Ambiente e assim enfrentar os desafi os impostos pelas profundas e velozes transformações ambientais no planeta Terra. Confi ra a entrevista com o autor.

O que o motivou a escrever sobre o tema da evolução humana?

O ser humano tornou-se um forte agente de transformações no planeta. Suas motivações, interesses, desejos, emoções, sentimentos e afetos, além de pensamentos, movem suas ações. Procurei focalizar a ecologia do ser, numa visão integradora. Para tanto, recorri a minhas experiências como pesquisador visitante na India, quando tive oportunidade de estudar e vivenciar a psicologia e a fi losofi a daquela civilização, que tem grandes contribuições a nos oferecer para o entendimento mais integral do ser humano, como individuo, população e espécie. Sri Aurobindo observou que somos uma espécie em transição e abordou a evolução humana a partir perspectiva evolucionista. Recorri também a minha vivencia com Pierre Weil, fundador da Unipaz, que teve uma visão integradora das ecologias e que reconhecia a importância da ecologia interior.

De que trata o livro?

Ele focaliza o ser humano, na diversidade de percepções que existem sobre a espécie. Focaliza a interação da espécie humana com os ecossistemas naturais e a sua capacidade de transformar o planeta a partir de sua inteligência, vontade, emoções, motivações, desejos e ambições. “Ó espécie humana, conhece-te a ti mesma e conhecerás o ambiente e o universo em que vives”. Essa máxima resume o espírito do livro. Ele vai além da abordagem socioambiental, que enfatiza o ambiente natural e a questão social, mas deixa em segundo plano os temas da ecologia interior e pessoal, que são essenciais.

Qual a magnitude da crise ecológica atual?

A magnitude das transformações atuais tem paralelo com as que ocorreram há 65 milhões de anos e que levaram à extinção dos dinossauros. Naquela ocasião, ocorreu a passagem da era mesozoica para a era cenozoica – a era dos mamíferos – ao fi nal da qual surgiu o homo sapiens, hoje um grande agente das transformações aceleradas que ocorrem no planeta. No atual contexto de rupturas cada espécie viva procura se adaptar às novas condições ambientais. Algumas conseguem faze-lo, outras se extinguem para sempre. A espécie humana se encontra numa encruzilhada que pode levar ao colapso ou a uma autosuperação que lhe permita sobreviver a essa situação critica.

Quais as diferenças entre a atual ruptura e as anteriores?

A velocidade das mudanças, que ocorrem no ritmo acelerado da evolução cultural e da consciência, e não mais no ritmo lento da evolução biológica ou das transformações geológicas. Outra diferença: o principal agente provocador dessas mudanças é nossa própria espécie. Por isso se defi ne como o & evolução humana meio ambiente antropoceno esse período no qual nossa espécie transforma o ambiente e as paisagens; e ao fazê-lo, se transforma a si própria, e cria riscos de catástrofes e do autoextermínio.

Por que é importante conhecer a ecologia do ser humano?

Para dar respostas à crise atual é valioso conhecer
o ser humano. É essencial compreender como atuam seu corpo, mente e emoções. O que motiva seus pensamentos, o estágio de evolução de sua consciência, sentimentos e necessidades, desejos, valores e crenças, interesses, bem como as energias ou forças que impulsionam suas ações. É necessário tal autoconhecimento tanto no plano individual como no da população e da espécie humana.

Quais os papéis do ser humano, na atual etapa da evolução?

O homo sapiens sapiens tem diversos papéis na evolução e infl ui nela de forma cada vez mais intensa, para o bem ou para o mal. Numa perspectiva que ressalta seus aspectos negativos, atua como agente deteriorador, degradador dos sistemas de vida, um produtor de desertos.

Ele é o grande predador, o anjo exterminador de outras espécies vivas e pode ser visto como um parasita, que suga a Terra que o hospeda. O ser humano é visto como aprendiz de feiticeiro, ao liberar forças que não sabe controlar; James Lovelock, o criador da teoria de Gaia, o defi ne ora como o engenheiro de manutenção do planeta, ora como um delinquente juvenil, pela irresponsabilidade que demonstra em suas ações. O ser humano tornou-se gestor e indutor da evolução, infl uenciada por suas ações, por suas atitudes e comportamentos individuais ou coletivos. Por sua vez, essas ações decorrem de pensamentos e de sua consciência.

Como essa espécie defi ne a si mesma?

Há uma diversidade de defi nições. Cada uma delas refl ete uma percepção parcial. Cada uma corresponde a uma parcela da verdade acerca desse ser multidimensional, com suas grandezas e misérias. A espécie já foi designada como Homo demens (“O homem é esse animal louco cuja loucura inventou a razão”, disse Cornelius Castoriadis); Homo moralis e o Homo honestus, um primata que coopera e que se comporta com valores éticos; o Homo sportivus e o Homo ludens, pelas características lúdicas que compartilha com outros animais que jogam, gostam de brincar e fazer humor (Johan Huizinga); o Homo corruptus, uma espécie parasita e predatória. Temos capacidade de autorrefl exão e de saber-nos ignorantes, o Homo idioticus que se deixa enganar. O Homo bellicosus se denomina assim por seu caráter guerreiro; ao desenvolver a tecnologia somos os Homo tecnocraticus; o Homo oeconomicus e o Homo consumptor descrevem uma espécie composta de um conjunto de indivíduos egoístas em busca de gratifi cação pessoal e acumulação material. Já o Homo scientifi cus valoriza a observação objetiva, a classifi cação e a mensuração. Edgar Morin fala do Homo complexus, que lida com a complexidade. Hoje podemos nos ver também como o Homo lixius, a única espécie animal que produz lixo: dois milhões de toneladas por dia. E ainda como o Homo stressatus moderno, com as consequências que isso traz à sua saúde, ansioso, com medo e preocupado com o futuro e com ameaças reais ou imaginárias. O Homo Consulens trata com cuidado de sua casa e das demais espécies. Ao ocuparmos todo o planeta, nos vemos como Homo planetaris; ao viajarmos no espaço, somos os Homo cosmicus e o Homo universalis. Transumanistas, que trabalham com a perspectiva de um ser evolutivo, acenam com o surgimento do Homo perfectus que atua por meio do uso ético das tecnologias para estender as capacidades humanas. O Homo noologicus, é aquele que sabe das consequências de seus atos. Joël de Rosnay, ao explorar as perspectivas para o terceiro milênio, defi ne o homem simbiótico, um ser associado simbioticamente ao organismo planetário que surge com sua própria contribuição, e de cuja associação harmônica decorrem benefícios para ambas as partes.

Qual a importância da consciência humana?

É da consciência humana que derivam pensamento, sentimentos, emoções, atitudes e ações. Conhece-la e atuar sobre ela é um caminho promissor para produzir ações mais amigáveis e menos violentas contra o ambiente.

Quais os principais avanços atuais no estudo da consciência?

No ocidente, a ciência da consciência avança por meio de pesquisas de neurociência que mapeiam o cérebro. A psicologia também contribuiu: da psicanálise à psicosíntese e à psicologia transpessoal abordou-se o inconsciente e o subconsciente (Freud, Jung), os diversos estados de consciência (vigília, sonho, sono, transpessoal), a cartografi a da consciência de Stanislav Grof. Abordagens transdisciplinares reconhecem a existência de um espectro amplo da consciência (Ken Wilber). No oriente, tradições milenares como na vedanta e no budismo, estudaram a fundo a consciência e constituem um manancial riquíssimo a ser melhor conhecido e aplicado. O ocidente avançou com sua mentalidade tecno-científi ca, do pensamento lógico, da racionalidade, correspondente ao hemisfério esquerdo do cérebro: dele vem a lei. O oriente valorizou a intuição e a aprendizagem criativa: dele vem a luz. Da mesma forma como os hemisférios esquerdo e direito do cérebro têm funções diferenciadas, nos hemisférios ocidental e oriental do planeta se desenvolveram concepções distintas sobre a consciência.

Qual o papel do mito da sustentabilidade?

Como demonstrou Joseph Campbell em O Poder do Mito, este tem uma função catalisadora, de unifi cação de uma cultura, civilização ou sociedade. Um mito também pode unifi car pessoas e grupos em torno de ideias e ideais comuns. Nesse sentido, o mito da sustentabilidade tem função positiva. O que quer que signifi que especifi camente para este ou para aquele grupo social, produz a agregação de atitudes de indivíduos, organizações, governos, empresas, nações. Ele tem sido uma referência que permite conceber e colocar em prática metas comuns. Nesse sentido, tornase um mito produtor de convergências.

O que signifi ca ser ecologicamente consciente?

A consciência ecológica compreende que o indivíduo ou a organização integram o meio ambiente e que aquilo que ocorrer com o meio ambiente incidirá sobre eles. A consciência ecológica dissolve a alienação e permite perceber os danos que comportamentos destrutivos causam ao ambiente e a cada indivíduo; ela ajuda a despertar a prudência ecológica nas ações. Ela leva a uma forma amigável de relacionamento com o ambiente. Aprende com a natureza e dela extrai ensinamentos para desenvolver ecotécnicas e o ecodesign. Tomar consciência da crise ecológica e da crise da evolução é um pré-requisito para desenvolver ações ecológicas responsáveis.

Qual a influência da propaganda sobre a consciência ecológica?

Da mesma maneira como o marketing e a publicidade atuam sobre o inconsciente e excitam o desejo de consumo, essas técnicas de comunicação também podem, caso haja consciência coletiva, promover o desejo por saúde ambiental. Podem reduzir a demanda por bens cujo processo de produção é destrutivo ou poluidor. Assim, por exemplo, pode-se contrapor à publicidade comercial, mensagens que minimizem o desejo do consumo material cuja satisfação pressiona a natureza.


* Maurício é arquiteto formado pela UFmG. Gestor ambiental, foi Secretário municipal de meio Ambiente de Belo Horizonte, Presidente da Fundação Estadual de meio Ambiente de minas Gerais, Diretor e conselheiro no conselho nacional do meio Ambiente (conama) e assessor na Agência nacional de Águas. como bolsista do cnPq, foi pesquisador visitante no Instituto Indiano de Administração em Bangalore, India. Escreveu o livro Tesouros da Índia para a civilização sustentável no qual enfatiza a importância daquela civilização num mundo em busca de sustentabilidade. colabora com OnGs ligadas à cultura de paz e ao federalismo mundial. colaborou com Pierre Weil, fundador da Unipaz, tendo sido vice-presidente da Fundação cidade da Paz, Brasília. É facilitador de seminários na Unipaz no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em Goiânia. Escreveu também as seguintes obras: Ecologizar (4ª edição, Editora Universa, Brasília, 2009 – trilogia) e Ecologizando a cidade e o planeta.   (Editora c/Arte, Belo Horizonte, 2008).

ALERJ

DMC Firewall is a Joomla Security extension!