Imprimir

Por uma educação ambiental mais próxima da da realidade

. Acessos: 772

Por Anne Kassiadou* e Celso Sánchez

580“Que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo de acusar a injustiça? Lavar as mãos em face a opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele.” (Paulo Freire)

Os projetos de escolas sustentáveis analisados nos três casos aqui pouco se aproximam das discussões em torno do movimento da justiça ambiental e que os conflitos socioambientais existentes no território onde estão situadas as escolas não estão contemplados nos temas geradores e/ou objetivos dos projetos educativos. Isso nos leva a supor que estes projetos de educação ambiental pouco podem contribuir para amenizar os conflitos socioambientais existentes no território, como também pouco promovem a produção de críticas por meio da problematização da realidade.

Através da apreciação inicial destes dados podemos perceber que existe um predomínio de projetos que focam em questões socioambientais mais genéricas, fundamentadas talvez, em um senso comum sobre questões relativas ao campo da educação ambiental e que parece não estar percebendo a realidade socioambiental do território onde estão situadas as escolas.

Não estamos de forma alguma desconsiderando a importância dos temas priorizados nos projetos escolares, compreendendo a relevância de projetos que abrangem ações de horta escolar, reaproveitamento de resíduos, reciclagem, educomunicação e outros.

Valorizamos o esforço e empenho dos professores na elaboração dos projetos escolares, muitas vezes, realizados pelo esforço pessoal ou de grupos intencionados na articulação das escolas à temática ambiental. No entanto, cabe refletir se, diante dos casos relatados, os temas tratam de assuntos mais urgentes e pertinentes ao contexto socioambiental dos municípios? Por que tais problemas e conflitos parecem estar invisibilizados nos projetos de educação ambiental escolar? Em que medida a política pode incorporar diretrizes que de alguma maneira orientem melhor os idealizadores de projetos a contextualizarem suas propostas as realidades locais?

Sendo assim, defende-se a incorporação das dimensões pedagógicas dos conflitos ambientais tanto nos projetos de educação ambiental, quanto nas diretrizes das orientações para a elaboração dos projetos, de maneira que possam servir como subsídios nas práticas cotidianas escolares e nas políticas públicas do campo.

Estudo de caso

A proposta de governamental de escolas sustentáveis encontra-se em consonância com o Programa Nacional de Mudança do Clima (PNMC) que propõe a “implementação de programas de espaços educadores sustentáveis com readequação de prédios (escolares e universitários) e da gestão, além da formação de professores e da inserção da temática mudança do clima nos currículos e materiais didáticos” (BRASIL, 2008).

  • São João da Barra – Rio de Janeiro: das 13 (treze) escolas no município de São João da Barra que submeteram propostas de projetos, seis tratam do tema de compostagem e horta escolar, cinco projetos têm como tema principal ações voltadas para reciclagem e/ou reaproveitamento de resíduos, um projeto propõe o plantio de árvores no entorno da escola e o outro tem como objetivo a construção de fossa séptica para a escola. Chamam atenção as informações referentes aos riscos ambientais das regiões onde estão situadas as escolas. Levando em consideração os dados levantados pela Fiocruz, este município passa por situações de relevantes riscos e conflitos ambientais. Mesmo assim, das 13 escolas que submeteram projetos, apenas 6 citam sobre a existência de riscos ambientais no município, sendo que duas relacionam os riscos com a existência do complexo portuário do Açu. Cabe ressaltar, que uma das escolas de São João da Barra está situada às margens da praia do Açu, local onde foi instalado o empreendimento. Esta escola em questão, não identifica a região como área de risco.
  • Magé – Rio de Janeiro: No que diz respeito aos 21 projetos de escolas do município de Magé, 10 tratam sobre o tema da reciclagem e/ou reaproveitamento de resíduos ou captação de água da chuva, quatro projetos focaram em ações de sensibilização para questões socioambientais. Houve ainda a proposta em três projetos de ações de Educomunicação e um projeto de despoluição de rios. Percebe-se que muitos projetos das escolas de Magé reconhecem que a região passa por intensos processos que envolvem riscos ambientais. Uma escola cita a obra do Gasoduto como um fator de geração de riscos e outras, que citam sobre o aumento da violência no município. Importante citar a presença de movimentos sociais em Magé, tal como o “Fórum dos Atingidos pela indústria do Petróleo e Petroquímica nas Cercarias da Baía de Guanabara”, que atua com a defesa de povos tradicionais e pescadores da região, além do movimento da Associação Homens Do Mar (Ahomar), que reúne pescadores da Baía de Guanabara. Diante deste cenário, a pergunta se manifesta: qual a educação ambiental necessária para a realidade de conflitos e injustiças socioambientais que atingem estas populações vulneráveis?
  • Itaboraí – Rio de Janeiro: Dos cinco projetos de escolas sustentáveis, dois tratam sobre horta escolar, um projeto sobre acessibilidade com a proposta de construção de bicicletário. Os outros dois tinham como objetivo desenvolver ações para reciclagem/ reaproveitamento de resíduos. Observase nos projetos que houve identificação da região como área de riscos, no entanto, não houve a citação sobre Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) como um possível fator que amplia o nível de vulnerabilidade ambiental na região. É possível que os projetos de Itaboraí estejam de acordo com as propostas criadas para a Agenda 21 do município. De acordo com dados obtidos no relatório da Agenda 21 de Itaboraí, a Coordenação de Educação Ambiental da Secretaria Municipal de Educação e Cultura implementou o Programa “Os 5 “Rs” (Reciclar, Reduzir, Reutilizar, Reaproveitar e Repensar) nas 74 escolas municipais, onde foram instaladas “lixeiras ecológicas”. (PETROBRAS, 2011)

* Anne Kassiadou – Mestranda do Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisadora do Grupo de estudos em Educação Ambiental Desde El Sur; Celso Sánchez – Prof. Dr. Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisador do Grupo de estudos em Educação Ambiental Desde El Sur. Orientador da pesquisa que vem sendo desenvolvida no Programa de Pós Graduação em Educação (PPGEdu) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UniRio, com o subsídio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no Grupo de estudos em Educação Ambiental Desde el Sur (Geasur) da UniRio.

 

Fonte: Revista VITAS – Visões Transdiscipl inares sobre Ambiente e Sociedade


ALERJ

DMC Firewall is a Joomla Security extension!