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E no meio do caminho há muitos golfinhos

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Sobre a necessidade de implantação de uma política efetiva para a conservação do boto-cinza na Costa Verde, RJ

O litoral sul fluminense, chamado popularmente de Costa Verde, é mundialmente reconhecido por suas belezas naturais. A proximidade da Serra do Mar associada à marcante presença da vegetação da Mata Atlântica colore de verde as águas marinhas da Baía de Sepetiba e da Baía da Ilha Grande, fazendo com que praias e ilhas se transformem em verdadeiros cenários paradisíacos.

Entretanto, os atributos naturais da Costa Verde não se restringem somente às belezas físicas: diversos estudos relatam que a região é dotada de elevados índices de biodiversidade, tanto nos ambientes terrestres como nos marinhos. Para a Baía da Ilha Grande, por exemplo, já foram registradas 13 espécies de cetáceos – mamíferos de vida exclusivamente aquática. Contudo, dentre todas elas, uma espécie merece ser destacada: o boto-cinza (Sotalia guianensis).

O boto-cinza é um cetáceo de pequeno porte que tem sua distribuição geográfica restrita à costa oeste do Oceano Atlântico, desde Honduras até Santa Catarina. Esta espécie prefere ambientes marinhos de baixas profundidades com considerável aporte de águas fluviais, como estuários e baías. Apesar do incremento nos esforços de observação que ocorreu na última década, estudos sobre diversos aspectos ecológicos sobre a espécie ainda se fazem necessários para o melhor conhecimento da mesma, além de fornecer subsídios para ações conservacionistas. A ausência de tais informações fez com que a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classificasse o boto-cinza na categoria dados deficientes, principalmente por não haver informações suficientes sobre importantes parâmetros populacionais, como o tamanho e a densidade populacional.

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Pesquisas realizadas desde 1994 pela equipe de pesquisadores do Laboratório de Bioacústica e Ecologia de Cetáceos (LBEC) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro sobre as populações de boto-cinza que ocorrem na Baía de Sepetiba e na Baía da Ilha Grande ressaltam a importância dos ambientes marinhos de ambas as localidades para a espécie. Para ter acesso a este tipo de informação, os pesquisadores utilizaram a técnica conhecida como foto-identificação. Ao emergirem para respirar, os botos-cinza exibem a nadadeira dorsal. Nela, é possível encontrar diversas marcas, que são resultantes da interação entre os indivíduos e/ou com o meio onde vivem. Por esta região ser constituída de tecido conjuntivo, as marcas encontradas nela não se regeneram e são permanentes, gerando marcas individuais específicas (semelhantes às impressões digitais na espécie humana) que viabilizam a diferenciação dos botos usando as fotografias.

Usando esta técnica, foi possível criar um catálogo de identificação dos botos para as duas baías em questão. O uso da foto-identificação tem como principal vantagem o fato de não interferir diretamente no comportamento do animal, uma vez que não é necessária a manipulação direta dos botos. As estimativas baseadas nesta técnica indicam que o número de botos ultrapassa 1 mil em cada baía, sendo assim, a região que possui as populações mais numerosas dentre toda a área de ocorrência da espécie. Outro fator que chama bastante atenção dos pesquisadores é o elevado número de filhotes e juvenis nas duas localidades. Nos meses chuvosos (de outubro a março) o número de filhotes chega a se aproximar do número de adultos na Baía da Ilha Grande. A disponibilidade de presas, a ausência de predadores potenciais e a variedade de micro-habitats da região são listadas como os principais aspectos que favorecem a permanência de fêmeas com filhotes no local. Tal fato é relevante para a espécie, pois garante a estabilidade da população ao longo dos anos.

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Na Baía da Ilha Grande, já foram registradas 13 espécies de cetáceos, mas uma merece destaque: o boto-cinza

A Baía de Sepetiba possui inúmeras áreas de mangue e estuário que proporcionam um criadouro natural para muitas espécies. Além disso, suas águas abrigam diversa fauna e flora. Entretanto, importantes empreendimentos econômicos além da ocupação desordenada da costa contribuem para o aumento dos conflitos ambientais gerados na região. Atualmente, a área convive com as obras para a criação de um novo porto, dedicado à movimentação de minério de ferro e exportação de aço. O empreendimento terá área de 52 hectares e profundidade de 20 metros, com previsão para movimentar 50 milhões de toneladas de minério por ano. Entretanto, a área preferencial de pesca da população de boto cinza da região é, justamente, o canal dragado de acesso aos portos. Além de usarem o canal como via de acesso ao Porto de Itaguaí, CSA e estaleiro da Marinha, as grandes embarcações também o utilizam como ponto de espera, onde ficam atracados aguardando a liberação para acessarem os portos. Além do aumento de embarcações, que pode ocasionar danos físicos diretos aos botos, empreendimentos deste tipo também podem causar um grande impacto sonoro, já que o motor dos navios produz altos níveis de ruído subaquático; mesmo quando estacionados à espera de carga/descarga os geradores dos navios produzem barulho constante e de alta amplitude. Esta mudança acústica pode resultar em mudança de comportamento, estresse fisiológico, deslocamento dos indivíduos e dificuldade de recepção dos sinais de ecolocalização utilizados para auxiliar na detecção de presas pelos botos. Há ainda para a região a atuação de operadoras de turisturismo que realizam passeios para a observação dos botos em seu ambiente natural. De acordo com a Lei Municipal nº832 da Prefeitura Municipal de Mangaratiba, que declara o botocinza patrimônio natural da cidade, este tipo de atividade deve requerer autorização prévia da Secretaria de Meio Ambiente, Agricultura e Pesca do município. O turismo de observação de cetáceos pode trazer grandes benefícios educacionais, porém, se não for manejado corretamente pode ocasionar efeitos contrários na população. Inúmeros trabalhos pelo mundo, analisando o efeito do turismo em populações de golfinhos, reportaram como principais efeitos a mudança comportamental, ou o afastamento dos indivíduos das embarcações se estas navegassem de forma invasiva ou muito próximas aos animais.

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