vilmar berna

VILMAR SIDNEI DEMAMAM BERNA - Escritor e jornalista, fundou a Rebia - Rede Brasileira de informação Ambiental (rebia.org.br), e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente), e o Portal do Meio Ambiente (portaldomeioambiente.org.br). Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da Onu para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio verde das Américas. www.escritorvilmarberna.com.br

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Desafiando as Mudanças para a Sustentabilidade

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Publicado na Revista do Meio Ambiente - Edição 53 - Dezembro/2012

 
Por: Vilmar Berna

Existem limites para o papel da informação e da educação nas mudanças. Alguns resistem a mudar, e não necessariamente por falta de informação, formação ou por maldade, mas por que mudar é difícil mesmo. 

Algumas mudanças a sociedade aprova e recomenda, outras não, o que torna a mudança não menos necessária, apenas mais desafiadora. Por exemplo, a sociedade condena o hábito de fumar. Estabelece zonas de exclusão para fumantes e não fumantes, proibiu a propaganda de cigarro e obriga os fabricantes a veicularem imagens e textos dramáticos nos maços de cigarro. Ainda assim, não foi suficiente para convencer cerca de 20 por cento da sociedade a largarem o vício. 

Por outro lado, a Sociedade estimula o consumismo, por todos os canais, de todas as maneiras, e a propaganda não respeita sequer as crianças mais jovens que ainda não sabem discernir direito o certo do errado, catequizando-os ao consumo desde cedo, ensinando que presentes materiais é uma forma de medir o tamanho do afeto e uma tentativa de suprir ausências de quem se ama. 

Ao contrário de ser proibido, quanto mais se consome, mais a sociedade reconhece como bom, desejável, importante consumir. Não que exista nada de errado em consumir. É o que fazemos do berço ao túmulo. O problema está no exagero, na tentativa de se obter felicidade e respeito social através do consumo de bens materiais, na desigualdade que chega ao ponto de dividir as pessoas em classes pelo seu poder de consumo. Quem pode consumir e acumular mais, fica no topo da pirâmide social, quem não pode, fica na base. No meio, ficam os que lutam para não descer e almejam o andar de cima. Assim, a luta não é exatamente para acabar com a pirâmide, mas para que todos tenham os mesmos direitos de chegarem ao topo, ainda que do ponto de vista das utopias. 

O resultado é um verdadeiro saque aos recursos naturais, destruição maciça de ecossistemas e poluições de todo tipo, a ponto deste nosso estilo de vida estar ameaçando o próprio futuro da humanidade. E numa hipótese de todos ao mesmo padrão de consumo dos que estão no topo da pirâmide, não haveria recursos naturais necessários para todos. Então, é falsa a idéia dos países divididos em primeiro, segundo e terceiro lugar, como se houvesse uma  corrida pelo desenvolvimento, pois não há possibilidades físicas do Planeta sustentar a todos que chegarem ao mesmo padrão dos chamados países de primeiro mundo. Ou se redistribui melhor a riqueza, ou se admite que a desigualdade faz parte de uma estratégia perversa de uns se apossarem de mais recursos do que os outros. 

A nova escravidão moderna chama-se consumismo. E, esta, nem precisa de correntes e chicotes, pois não nos aprisiona de fora para dentro, mas captura nossos sonhos, desejos, utopias, e os transforma em bens de consumo, obrigando-nos a dedicar o melhor de nosso tempo, liberdade e criatividade ao trabalho. Temos pressa para produzir demais numa ponta e consumir demais na outra e falta tempo até para comer direito. Comemos cada vez mais depressa e alimentos de má qualidade, o resultado são as epidemias de obesidade, diabetes, hipertensão, ansiedade, depressão. E assim como entupimos nossas artérias de gordura, entupimos as ruas e avenidas de nossas cidades de automóveis, e com freqüência vivemos sem mobilidade no trânsito. 

Ao contrário das campanhas contra o fumo, no consumismo, a campanha é por mais consumo e não menos. Nas embalagens dos produtos que consumimos não vem impresso imagens que mostrem o quanto de nossa saude, da mobilidade de nossas cidades e de meio ambiente teve de ser sacrificado. Não mostram as montanhas de lixo e a poluição que deixamos para trás com nosso estilo de vida e de consumo. Não mostram as injustiças sociais que acompanham as injustiças ambientais. Entretanto, sabemos disso e, ainda assim, como fazem os fumantes, preferimos ignorar os avisos. Somos uma sociedade viciada e dependente do consumismo e não queremos nos libertar. Ou queremos?

 

ALERJ

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