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VILMAR SIDNEI DEMAMAM BERNA - Escritor e jornalista, fundou a Rebia - Rede Brasileira de informação Ambiental (rebia.org.br), e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente), e o Portal do Meio Ambiente (portaldomeioambiente.org.br). Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da Onu para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio verde das Américas. www.escritorvilmarberna.com.br

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Boas notícias

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Ao contrário do noticiário ambiental catastrófico, o mundo pode estar indo melhor do que se imagina

Por Vilmar Sidnei Demamam Berna*

Precisamos dos sonhos, ou não sentiremos vontade de mudar. A sustentabilidade requer sonhos, por que precisamos de esperanças para mudar de um modelo e estilo de vida insustentável, que já consome mais recursos do que o Planeta tem para oferecer, para outro, que aprenda a conviver com o fim do desperdício, a melhor distribuição de recursos entre os que precisam, o direito das demais espécies à vida tanto quanto nós, etc.

É duro admitir, mas é bem verdade, que alguns jornalistas, e aí tenho de dar a minha mão à palmatória, tendem a publicar muito mais as denúncias ambientais que o contrário. Antes que me apontem o dedo sujo, digo que tão importante quanto informar o que dá certo é também informar o que não dá. Não se trata de ser bonzinho ou mauzinho, os fatos estão aí, apenas precisamos exercitar o olhar ter um olho na missa e outro no padre. Tão importante quanto pautar denúncias e problemas, é pautar soluções, não por ser alguma espécie de favor, mas por ser a realidade, pelo menos na forma como a vemos. E é aí que pode estar o problema. Um enfoque exagerado na má notícia ou na boa notícia pode nos fazer perder a perspectiva. De vez em quando, é puxar o freio de mão e dar uma olhada em volta.

Segundo o Professor Hans Rosling do Global Health, Karolinska Institutet(http://www.bbc.co.uk/news/magazine-24835822), o mundo não vai tão mal assim. Não se trata de uma ideia, ilusão ou fantasia da cabeça dele, mas baseia-se em estudos fundamentados que vale a pena conhecer.

Quem viveu estes últimos cinquenta anos pode conferir as mudanças positivas. A até bem pouco tempo, por cinquenta anos na história da Humanidade é realmente muitíssimo pouco tempo, vivíamos num mundo dividido.

Basicamente, os países se dividiam em “desenvolvidos” e “em desenvolvimento”. Um tipo de país era rico, e o outro pobre. Um tinha pequenas famílias, o outro famílias grandes. Um tinha longa expectativa de vida, o outro curta. Um deles era politicamente poderoso, o outro fraco. E entre esses dois grupos, não havia quase ninguém. Tanta coisa mudou radicalmente neste período de menos de uma geração. Os países do mundo de hoje desafiam todas as tentativas de classificá-los em apenas dois grupos. Assim, muitos do grupo anteriormente “em desenvolvimento” estão alcançando os mais avançados. Entre as nações no topo da liga de saúde e riqueza, como Noruega e Cingapura, até as nações mais pobres devastadas pela guerra civil, como a República Democrática do Congo e a Somália, existem países ao longo de todo um espectro socioeconômico. Aliás, a maioria das pessoas do mundo vive no meio. Brasil, México, China, Turquia, Tailândia e muitos outros países estão agora mais parecidos com os países mais desenvolvidos em diversos aspectos do que com os mais pobres. Metade da economia do mundo – e mais da metade do crescimento econômico do mundo – está agora fora da Europa Ocidental e da América do Norte.

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A expectativa de vida no Vietnã aumentou, e atualmente é comparável ao que os EUA possuíam em 1980

Também as pessoas estão muito mais saudáveis, vivendo mais. Cinquenta anos atrás, a expectativa média de vida no mundo era de 60 anos. Hoje, é de 70 anos. E na década de 1960, essa média mascarava um enorme fosso entre a expectativa de vida em países “desenvolvidos” e “em desenvolvimento”. Agora, a média atual de 70 anos aplica-se à maioria dos povos do mundo (diferente da riqueza). Por exemplo, o Vietnã tem a mesma saúde que os EUA tinham em 1980, mas até agora apenas a mesma renda per capita que os EUA tinham em 1880.

Por trás do aumento da expectativa de vida encontra-se uma queda expressiva da mortalidade infantil. Tragicamente, 7 milhões das 135 milhões de crianças nascidas a cada ano ainda morrem antes dos cinco anos de idade. Mas, em 1960, uma em cada cinco crianças morriam antes da idade de cinco anos. Hoje é uma em 20, e a taxa continua caindo. Um mito comum é que os cuidados de saúde – por salvar a vida de crianças pobres – só levam ao crescimento populacional mais rápido. Paradoxalmente, o oposto é verdadeiro. Por quê? Porque só há demanda para o planejamento familiar quando a mortalidade infantil cai bastante. Antes que isso aconteça, as mulheres continuam a ter filhos. As mais rápidas taxas de crescimento populacional hoje estão nos países mais pobres e em guerra com a maior mortalidade infantil, como o Afeganistão e a República Democrática do Congo. Quando a taxa de mortalidade diminui, a demanda por planejamento familiar sobe.

A própria superpopulação do Planeta começa a diminuir ainda que de uma forma gradual. As forças demográficas que impulsionaram o crescimento da população mundial no século 20 estão mudando. Cinquenta anos atrás, a taxa média mundial de fertilidade – o número de bebês nascidos por mulher – era 5. Desde então, esse número caiu para 2,5 – algo sem precedentes na história da humanidade. A fertilidade continua tendendo para baixo. Tudo graças a uma poderosa combinação de educação feminina, acesso a contraceptivos e ao aborto, e aumento da sobrevivência de crianças. As consequências demográficas são surpreendentes. Na última década, o número total global de crianças de 0-14 anos se estabilizou em torno de dois bilhões, e os especialistas das Nações Unidas prevêem que a população vai continuar assim ao longo deste século. A quantidade de crianças no mundo de hoje é o máximo que haverá. Entramos na era do pico de crianças. A população continuará a crescer à medida que essa geração envelhecer. Assim, novos adultos serão adicionados à população mundial, mas, em seguida, na segunda metade deste século, o rápido crescimento da população mundial vai finalmente chegar ao fim.

Quer mais indicadores? O fim da pobreza extrema está à vista. Os economistas definem como pobreza extrema uma renda de menos de US$ 1,25 (cerca de R$ 2,50) por dia. Na realidade, isso significa que uma família não pode ter a certeza de que vai comer no dia seguinte. As crianças têm de trabalhar em vez de ir para a escola. Elas morrem de causas facilmente evitáveis, como pneumonia, diarreia e malária. E para as mulheres, isso significa fertilidade descontrolada e famílias de seis ou mais filhos. Entretanto, o número de pessoas nesta situação, de pobreza extrema, de acordo com o Banco Mundial, caiu de dois bilhões em 1980 para pouco mais de um bilhão hoje. Apesar de muitas pessoas no mundo ainda viverem em uma renda muito baixa, seis dos sete bilhões já estão fora da pobreza extrema e esta é uma mudança fundamental. Essas famílias têm menos filhos, dos quais a grande maioria vai sobreviver, obter comida suficiente e ir à escola. Na verdade, pela primeira vez, a evidência sugere que agora é possível para o último bilhão também sair da miséria nas próximas décadas. Mas isso só acontecerá se eles receberem, de seus governos e do mundo em geral, a ajuda que precisam para se manterem saudáveis e terem educação.

Finalmente, um item não menos importante, mas que tem sido fundamental para toda esta mudança. As mulheres estão recebendo educação melhor. No mundo como um todo, homens com idade entre 25 e 34 anos passam, em média, oito anos na escola, e as mulheres da mesma faixa etária já estão logo atrás, com uma média de escolaridade de sete anos. De fato, em alguns países mais pobres, como Bangladesh, as meninas agora frequentam a escola primária e secundária nos mesmos números que os meninos. As 60 milhões de crianças no mundo que ainda nem sequer vão para a escola primária fazem isso quase sempre por causa de sua pobreza extrema – elas precisam trabalhar. Apenas cerca de 10% das meninas não podem ir à escola por causa de tabus culturais. A melhor educação das meninas é apenas um primeiro passo no longo caminho para a igualdade de gênero. No entanto, a violência contra as mulheres e as restrições sobre os seus direitos de escolher como viver suas vidas agora estão substituindo a falta de escolaridade como a principal injustiça de gênero. Sim, ainda vem muita má notícia por aí, antes que as boas notícias consigam se tornar predominante, mas já é um bom sinal saber que as coisas não estão tão ruins quanto parecem, e que ainda pode haver esperança para a humanidade, afinal.


* Vilmar é escritor e jornalista, fundou a Rebia - Rede Brasileira de Informação Ambiental (rebia.org.br), e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio Ambiente (que
substituiu o Jornal do Meio Ambiente), e o Portal do Meio Ambiente(portaldomeioambiente.org.br). Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas


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