Imprimir

A baleia de Bryde: uma gigante desconhecida

. Acessos: 2561

267

O Laboratório de Bioacústica e Ecologia de Cetáceos (LBEC ) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro constatou que a região Arraial do Cabo e Cabo Frio, no norte do estado, é constantemente usada por estes animais para se alimentar e cuidar dos filhotes. O intenso tráfego de embarcações de turismo e lazer, alta atividade pesqueira, militar e petrolífera colocam em perigo a sobrevivência dessas baleias. A maior parte das observações foi realizada na RESEX mar Arraial do Cabo, que até o momento não possui um plano de manejo.

A baleia de Bryde (Balaenoptera edeni) é uma das baleias menos conhecidas em todo o mundo, apesar de sua distribuição ser ampla, podendo ser encontrada em águas tropicais e temperadas dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, entre as coordenadas 40ºN e 40ºS.

Os indivíduos dessa espécie podem atingir até 15,5m e pesarem até 16 toneladas. Em média apenas um filhote é concebido e a gestação dura em torno de 11 meses. Os filhotes ao nascerem medem em torno de 4m e são amamentados até cerca de seis meses. As poucas informações sobre a espécie, coletadas em diversas partes do mundo, indicam que ela se alimenta primariamente de peixes pequenos como a sardinha, diferentemente de algumas baleias, como a Azul que se alimenta majoritariamente de pequenos camarões, chamados krill. Em média, a Bryde consome cerca de 4% de sua massa corporal por dia, o que corresponde a cerca de 600-660kg de alimento. Em geral, estas baleias não se reúnem em grandes grupos e não fazem grandes migrações latitudinais que atravessam grandes distâncias. Informações sobre a ecologia, o comportamento e aspectos sobre sua genética e história de vida são pouco conhecidos, motivo pelo qual a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em original no inglês) a considera como “Deficiente em dados”. Dessa forma, aspectos como o tamanho das populações, área de vida, padrões de deslocamento e longevidade, por exemplo, são desconhecidos.

No Brasil, a baleia de Bryde se distribui continuamente por todo o território costeiro, exceto pelos estados de Alagoas, Sergipe, Pernambuco e Rio Grande do Norte onde nenhum registro foi feito. Durante a época de caça às baleias, a Bryde foi intensivamente caçada, principalmente depois que as populações de outras baleias terem sido reduzidas abaixo dos níveis que a economia da época necessitava. Por ter uma distribuição muito ampla no Brasil, ela sofre diversos impactos resultantes da atividade humana. Entre eles estão a redução da disponibilidade de presas e de habitats, aumento da poluição e do tráfego de embarcações. Dessa forma, em 2011, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICM-Bio) criou o Plano de Ação Nacional de Grandes Cetáceos e Pinípedes que indica algumas metas a serem cumpridas para aumentar o nível de conhecimento e incrementar esforços para a conservação de diversas baleias, inclusive a baleia de Bryde.

De modo a aumentar esse conhecimento para promover sua conservação, no final de 2010, o Laboratório de Bioacústica e Ecologia de Cetáceos (LBEC) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, iniciou um projeto de pesquisa financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na região de Arraial do Cabo e Cabo Frio, no norte do estado do Rio de Janeiro.

267b
267c
267d

A área em que foi realizado o estudo tem duas Unidades de Conservação: a Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo (RESEX mar Arraial do Cabo) e a Área de Proteção Ambiental Pau Brasil (APA Pau Brasil). Além disso, é altamente produtiva, já que há a mistura de águas superficiais e quentes com águas profundas e ricas em nutrientes, ocasionando o efeito da ressurgência. Os resultados encontrados pela equipe indicaram que a região é constantemente usada por baleias de Bryde que foram vistas se alimentando, deslocando e usando a área para cuidar de seus filhotes. As baleias foram avistadas mais comumente durante o outono, época em que os cardumes de sardinha são maiores na região.

Apesar da importância da área em que o estudo foi realizado, muitas atividades ameaçam o local como hábitat crítico para a espécie. É comum na região o intenso tráfego de embarcações de turismo e lazer (principalmente pela grande beleza cênica da região), alta atividade pesqueira, militar e petrolífera. Tais atividades, portanto, colocam em perigo a sobrevivência das baleias. A maior parte das observações foi realizada na RESEX mar Arraial do Cabo, que até o momento não possui um plano de manejo para a região, o que permitiria estabelecer diretrizes para a gestão e uso sustentável da área, diminuindo o impacto na área.

A continuação e aprimoramento dos estudos com as baleias de Bryde na região podem permitir avaliar com maior precisão o impacto das atividades humanas sobre as baleias e ajudar na elaboração do plano de manejo. Esses esforços devem ser contínuos e intensificados de modo a permitir que estas gigantes desconhecidas possam sobreviver e continuar a usar a área como um importante hábitat em águas brasileiras. Ao fazer isso, a política pública nacional de proteção aos cetáceos, representada pelo Plano de Ação Nacional dos Grandes e Pequenos Cetáceos será fortalecida e mais um importante passo será dado para a conservação da baleia de Bryde.

1 – Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Departamento
de Ecologia. Avenida São Francisco Xavier, 524, Rio de
Janeiro, Brasil.

2 – Laboratório de Bioacústica e Ecologia de Cetáceos,
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro,
Departamento de Ciências Ambientais. Rodovia BR 465,
km 7, 23890-000, Seropédica, RJ, Brasil.

3 - Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia
do Rio de Janeiro, Rua Lúcio Tavares, 1045, Nilópolis,
Rio de Janeiro, Brasil.

4 – Departamento de Ecologia, Universidade do Estado
do Rio de Janeiro. Avenida São Francisco Xavier, 524, Rio
de Janeiro, Brasil.


{fcomment id = 267}

ALERJ

Our website is protected by DMC Firewall!