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É hora de por na balança o custo ambiental e ético dos nossos pratos

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Por Carolina Galvani

balançabalançaPara o café: leite, manteiga, presunto e queijo. Almoço: feijoada, churrasco, bisteca, bife ou frango. E a noite um sanduiche com frios, hambúrguer ou pizza.

Há tempos a medicina avisa que o consumo excessivo de proteína animal pode causar vários problemas de saúde. Mas o problema não para por aí. Dietas como a brasileira, ricas em proteína animal, também são um dos fatores que mais contribuem para a degradação ambiental e práticas que implicam no sofrimento dos animais criados para consumo.

 

Sem contar a produção aquícola, mais de 70 bilhões de animais foram criados para o consumo humano apenas no ano de 2010. As consequências ambientais do setor de produção animal – como impactos nas mudanças climáticas, desmatamento, poluição e uso dos recursos hídricos – têm ganhado cada vez mais atenção. Em 2006, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) declarou que “o setor da produção animal emerge como um dos dois ou três maiores responsáveis pelos mais sérios problemas ambientais”. A FAO estima que o setor de produção animal em nível global é responsável por quase um quinto das emissões totais de gases do efeito estufa (GEE) geradas por atividades humanas. Mas muitos estudos mostram que essa contribuição é significativamente maior no Brasil.

Também de acordo com a FAO, o Brasil é um dos países onde o consumo per capita de carnes, ovos e laticínios tem crescido mais significativamente nas últimas décadas. Entre 1980 e 2005, o consumo de per capita de carnes no país praticamente dobrou alcançando níveis similares ao de países desenvolvidos. O consumo de laticínios e ovos também cresceu significativamente, em 40 e 20% respectivamente.

Para abastecer a crescente demanda por produtos de origem animal, os sistemas de produção estão se tornando cada vez mais intensivos. Contrariamente à percepção que muitos têm de que os animais estão sendo criados livres em pastos por produtores familiares, a maioria deles está sendo confinada em grandes unidades industriais fechadas, que abrigam centenas ou milhares de animais. Nelas, os animais podem passar suas vidas inteiras sem nem mesmo ver a luz do sol. Tais sistemas de produção ameaçam a existência de produtores familiares, que geralmente adotam sistemas de produção mais humanitários.

A alta concentração de animais em sistemas industriais pode fazer com que o volume de dejetos produzidos exceda a capacidade de absorção das terras ao redor. Os porcos, por exemplo, produzem quatro vezes mais dejetos do que os seres humanos. Dejetos oriundos de granjas suínas geralmente são armazenados em covas ou lagoas, que frequentemente corroem ou vazam e assim contaminam os recursos hídricos locais com excesso de nitrogênio e fosforo, além de patógenos e outros poluentes. As granjas industriais muitas vezes adotam a prática de borrifar dejetos minimamente tratados ou não-tratados nos campos, o que pode ameaçar a qualidade da água, solo e ar.

O setor de produção animal também é um dos maiores consumidores dos já escassos recursos hídricos e geralmente têm uma pegada hídrica maior do que produtos de origem não-animal. Por exemplo, em termos equivalentes no fornecimento de proteínas, a pegada hídrica da carne bovina é seis vezes maior do que a da produção de legumes. No caso da carne de frango, ovos e leite, a pegada hídrica é 1.5 vezes maior do que a dos legumes.

Mas não é só o meio ambiente que sofre com a crescente produção e demanda por carnes, ovos e laticínios. Os animais também sofrem imensamente nas granjas industriais. No Brasil, a maioria das porcas reprodutoras passam praticamente suas vidas inteiras confinadas em “celas de gestação”. Essas celas têm apenas cerca de 60 centímetros de largura por dois metros de comprimento e por isso não permitem que as porcas sequer se virem dentro delas ou deem mais do que um passo para frente ou para trás. Os porcos são um dos animais mais inteligentes que habitam o nosso planeta. Muitos dos cientistas que os estudaram acreditam que a inteligência, sociabilidade e consciência dos porcos os colocam em um nível mais elevado do que outros animais domesticados, talvez os alocando na mesma categoria de elefantes, golfinhos e grandes primatas. Porcas confinadas em celas são mais propensas a vivenciar tédio, frustração, trauma psicológico e outros inúmeros problemas de saúde.

Similarmente, na produção de ovos cerca de 90% das galinhas poedeiras no Brasil são confinadas em gaiolas em bateria tão pequenas e superlotadas que elas não conseguem sequer esticar completamente suas asas. Essas gaiolas também impedem que as galinhas realizem a maioria de seus comportamentos naturais como caminhar, empoleirar, tomar banhos de areia e botar seus ovos em ninhos. Nessas condições, as aves sofrem de estresse psicológico e inúmeros males físicos como enfraquecimento e fratura de ossos, perda de penas e diversas outras enfermidades.

Ambos os sistemas de confinamento – as gaiolas e as celas – vêm sofrendo sérias críticas de especialistas em bem-estar animal e alguns lugares do mundo eles já são proibidos. Por exemplo, em 2012, a União Europeia (UE) baniu o uso de gaiolas em bateria convencionais. No mesmo ano, o Reino do Butão também proibiu o confinamento de poedeiras em gaiolas em bateria. Nos EUA os estados da Califórnia, Michigan e Ohio aprovaram leis para restringir o confinamento de poedeiras. A maioria dos estados da Índia já declarou que o uso de gaiolas em bateria viola a legislação nacional contra a crueldade animal.

Cada vez mais leis estão sendo aprovadas para banir o confinamento de porcas em celas de gestação. A UE proíbe o uso dessas celas, exceto durante as primeiras quatro semanas de gestação. Nove estados dos EUA, o governo central da Nova Zelândia e o estado australiano da Tasmânia também possuem leis proibindo o confinamento de porcas reprodutoras. As indústrias suínas da Austrália e da África do Sul também já começaram um processo voluntário de banir o uso das celas, e o Canadá agora está considerando uma proibição em nível nacional.

Empresas também estão dizendo não a essas cruéis práticas de confinamento. Recentemente multinacionais como McDonald’s, Burger King, Subway e aproximadamente outras 60 empresas líderes no mercado alimentício nos EUA anunciaram que elas pararão de comprar carne suína de fornecedores que usam celas. O Burger King, Subway e WalMart se comprometeram a comprar ovos somente de produtores que não confinam as aves em gaiolas em suas operações nos EUA e na UE.

Dada a crescente conscientização sobre o bem-estar animal, algumas empresas já estão adotando essas políticas em nível global. A Unilever, fabricante da maionese Hellmann’s, já anunciou que 100% dos ovos que compra serão produzidos sem gaiolas até 2020. No mês passado, a rede de fast-food Quiznos, que opera 24 lojas no Brasil, anunciou que seus restaurantes não mais servirão carne de porco de produtores que usam celas de gestação. E no começo deste ano, a rede de hotéis Marriott International se comprometeu a eliminar o uso de gaiolas para aves e suínos de sua cadeia de fornecimento global, não deixando o Brasil de fora.

Estudos dizem que os brasileiros se importam com a questão. Em 2012 o Instituto Akatu conduziu uma pesquisa que revelou que 87% dos consumidores brasileiros consideram “importante” ou “muito importante” que os animais não tenham sido maltratados durante a produção. E o mercado já começa a comprovar essa tendência. Em 2011 o Grupo Pão de Açúcar reportou que as vendas de ovos orgânicos, em que as galinhas são criadas soltas, cresceram quase duas vezes do que as vendas de ovos convencionais – produzidos em gaiolas.

Mas a mitigação dos sérios problemas ambientais e desrespeito com a vida animal ainda requer extensas e imediatas mudanças. Cada um de nós pode diminuir nossa pegada ambiental e ajudar os animais ao substituir ou reduzir o consumo de produtos de origem animal, ou optar por produtos produzidos de forma mais humanitária e sustentável, como é o caso dos ovos caipiras ou orgânicos. E ao ajudar o planeta e os animais nós também estaremos beneficiando nossa saúde. A redução do consumo de produtos de origem animal e a substituição dos mesmos por opções saudáveis de origem vegetal pode reduzir o risco de doenças crônicas, como problemas cardíacos, acidentes cardiovasculares, obesidade e alguns tipos de câncer.

Carolina Galvani é gerente de campanhas de animais de produção da Humane Society International (HSI) no Brasil. Junto com suas organizações parceiras, a HSI constitui uma das maiores organizações de proteção animal do mundo, sendo apoiada por mais de 11 milhões de pessoas. A HSI apoia produtores que adotam melhores práticas de bem-estar animal e que colocam no mercado produtos produzidos de uma forma mais humanitária. Na web: www.hsi.org/brasil.

 

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