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O Velho Chico agoniza

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Seca histórica no Rio São Francisco assombra população, afeta economia e expõe enormes falhas governamentais

Por Ana Alencar e Antonio Fernando Pinheiro Pedro

Ironicamente desde o início do ano a grande mídia nos inunda com uma enxurrada de manchetes sobre a seca paulista em abordagens superficiais explicando para a população apenas como “falta de chuvas”, mas a queda nas precipitações do último verão está longe de ser a regra para o clima desta região. O que pode ter ‘quebrado’ o grande corredor de rios voadores em formato de bumerangue que costuma existir nos verões da América do Sul?

O Velho Chico vem sendo castigado, ao longo dos anos, por ações indiscriminadas de erosão, assoreamento e desmatamento das margens, mau uso de suas águas e pela falta de ações efetivas de preservação de suas nascentes.

Na última semana de setembro de 2014, a principal nascente do Rio São Francisco foi declarada oficialmente seca.

A sentença foi proferida por analistas ambientais e encarregados da área do Parque Nacional da Serra da Canastra, onde ela se encontra.

A situação é considerada e preocupante e, é resultado da estiagem prolongada e incêndios que devastam a vegetação nativa, além das condições climáticas.

Construções de barragens, desvios de suas águas para usos pouco controlados, o uso indiscriminado pela população ribeirinha, tem impactado não só a quantidade e qualidade das águas, como o bioma que circunda o Velho Chico.

Muitas espécimes de peixes nativos foram afetados pelos desvios da águas,. As atividades pesqueiras exercidas em bases insustentáveis, comprometeu a indústria pesqueira ao longo do Rio. A desastrosa introdução de peixes amazônicos, por conta dos barramentos, transformaram-se em pragas.

Segundo os especialistas que vêm acompanhando a degradação do São Francisco, as obras de transposição de suas águas, promovidas pelo governo federal, têm fornecido verbas para estudos e investimentos em programas ambientais para recuperação e preservação do bioma circundante do Rio. Porém, falta pessoal especializado na fauna e flora da caatinga.

Mudanças climáticas têm provocado períodos de estiagem cada vez mais longos. Isto fez com que o Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF), se reunisse no dia 30 de setembro e, por meio de sua Câmara Consultiva Regional do Alto São Francisco, divulgasse um documento sugerindo medidas emergenciais para atender toda a bacia.

O documento, pede que seja instalado um Comitê Gestor da Revitalização que controle emergencialmente a redução de vazão das represas ao longo da macrobacia.

O documento também alerta que “da nascente à foz o rio vem diminuindo sua vazão, comprometendo a quantidade e a qualidade das águas, as atividades econômicas e inviabilizando os usos múltiplos”. A proposta é de racionamento das águas do Rio, principalmente para as atividades de irrigação.

O documento revela algo muito mais grave: a falência do conjunto de organismos destinados a planejar, monitorar, revitalizar e desenvolver a bacia do Velho Chico, que por todos esses anos, décadas, receberam quantias expressivas, verbas razoáveis, pessoal e equipamentos e… nada fizeram de efetivo para prevenir o desastre.

O sonho de que o sertão vire mar, está mais longe de se tornar realidade…

O Rio que leva o nome do padroeiro da ecologia, está à espera de um milagre.

O mais complexo de tudo é conciliar essa situação de redução drástica da vazão com a demanda por água nas áreas de transposição, acordes com o projeto do governo federal cuja promessa tornou-se uma enorme dívida.

Se a região sudeste enfrenta uma escassez sem precedentes, o sofrido nordeste amarga mais uma crise, que pode comprometer planos, programas e atividades econômicas transformadoras, já instaladas.

Esperemos que o milagre se faça e o clima mude o quanto antes.


Fonte: Ambiente Legal Justiça e Política.


ALERJ

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