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Abelhas, as primeiras vítimas do apocalipse apontado no ‘relógio’ dos cientistas?

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Abelhas, as primeiras vítimas do apocalipse apontado no ‘relógio’ dos cientistas?

Albert Einstein dizia que se todas as abelhas do mundo desaparecessem do planeta, a humanidade só teria mais quatro anos de vida.

“Sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais não haverá raça humana”, profetizava.

Eu já sabia da preocupação do físico alemão com esses bichinhos, mas quem me fez puxar da memória essa parte interessante da história foi José, dono da vendinha aqui na esquina onde costumo comprar aqueles produtos que a gente precisa ter em casa e se esquece de vez em quando. Além de negociante, José é apicultor, tem inúmeras informações sobre abelhas catalogadas numa pasta com divisórias de plástico onde arquiva também fotos sobre o local onde as cria. Dia desses, de volta do sítio onde tem sua criação, ele me recebeu exultante:

“Elas voltaram! As abelhas voltaram! Eu andava preocupado, as bichinhas estavam escassas. Especialistas diziam que haviam morrido, que estavam desaparecendo por causa do aquecimento global, tenho aqui até as reportagens que li sobre o assunto. Mas, nesse fim de semana, estive lá e fiquei feliz: pelo menos no meu apiário, elas estão de volta!”

Comemorei com ele modestamente, e fui obrigada a jogar um balde de água fria em sua exultação. É que, por coincidência, eu havia recebido por mensagem eletrônica um relatório feito pela ONGGreenpeace, dando conta, exatamente, do contrário.

A base para este novo relatório é um estudo feito pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (Aesa), organização contratada para realizar avaliações de risco para o uso de pesticidas e seu impacto sobre as abelhas. Tais avaliações de risco, publicadas há quatro anos, exatamente em janeiro de 2013, geraram grande preocupação entre apicultores do mundo todo e fizeram com que a União Europeia adotasse uma proibição parcial do uso de algumas substâncias, como clotianidina, imidacloprida e tiametoxan, chamadas de neonicotinoides, associados a eventos de envenenamento em massa de abelhas Apis (ou Bichomel) e vespa-de-rodeio quando são aspergidos no ambiente em geral. A proibição entrou em vigor a partir de dezembro de 2013.

O que o Greenpeace fez este ano foi uma reavaliação. Os riscos potenciais dos neonicotinoides às abelhas são menores, iguais  ou maiores do que em 2013?Levando em conta oito avaliações de risco, os técnicos concluíram que o risco permanece inalterado ou é maior em várias situações. Em nenhuma delas, o risco é menor.

“Tendo em conta que a avaliação de risco inicial de 2013 era suficiente para impor uma proibição parcial no uso de neonicotinoides sobre culturas que florescem, e dado que as novas evidências confirmam ou aumentam a evidência de risco para as abelhas, é lógico concluir que a evidência científica atual suporta a extensão da moratória, e que se deve considerar a extensão da proibição parcial a outros usos de neonicotinoides”, conclui o estudo.

Mas a recomendação feita pela associação europeia há quatro anos não foi levada em conta por quem produz e comercializa os produtos químicos que estão sendo os algozes das abelhas. E não são poucas as críticas, os alertas. Aqui no Brasil, o Centro Tecnológico de Apicultura e Meliponicultura do Rio Grande do Norte fez uma petição que foi encerrada em 8 de março de 2015 com 22.190 assinaturas e foi entregue às autoridades competentes. A campanha se chamou “Sem abelhas, sem alimento” e obteve apoios internacionais.

A ideia principal da campanha é estimular os cidadãos a interagirem e protegerem as abelhas. Mas o subtexto pode ser também um alerta contra o uso abusivo dos agrotóxicos, sobretudo aqui no Brasil, país que ostenta, desde 2008, o ranking de maior consumidor de defensivos agrícolas do mundo. Cada brasileiro consome, em média, 5,2 litros de agrotóxicos por ano. Além de permitir o uso de pesticidas proibidos em outros países, o Brasil ainda exonera os impostos dessas substâncias.

Segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), 70% dos alimentos in natura consumidos no Brasil estão contaminados por resíduos de pesticidas. Nos últimos dez anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, já no Brasil, esse crescimento foi de 190%, de acordo com os dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Sem abelhas, não há vida. Com defensivos demais não se pode pensar numa alimentação saudável, o que compromete também a vida.

O dado ainda mais complexo que completa essa perversa equação é o apelo ao desenvolvimentismo. No ano passado, o governo brasileiro concedeu redução de 60% do ICMS (Imposto relativo à Circulação de Mercadorias), isenção total do PIS/Cofins e do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) à produção e comércio dos pesticidas. Isso significa que a fabricação dos produtos que podem causar tantos males aos humanos e às abelhas (no mínimo) pode ser contabilizada como “riqueza” na  hora de medir o Produto Interno Bruto (PIB).

Estamos vivendo uma era muito confusa. Valores antes arraigados  mudam de forma a todo momento. No comando da nação mais rica, Donald Trump se coloca como cético do clima. Preocupações com as abelhas, mesmo que venham ornadas por uma observação de alguém como Albert Einstein, hão de ser consideradas comezinhas pela equipe do homem que pretende, primeiramente... bem, voltar atrás, acabar com a globalização, dar um stop no relógio.

Seria bom se ele conseguisse para o relógio do Apocalipse, que está a dois minutos e meio da meia-noite.  Acertado por um grupo de cientistas de renome, da revista “Bulletin of the Atomic Scientists”, profissionais que também não devem ter nem mesmo registro na agenda de Donald Trump, o tal relógio do Apocalipse retrata o cenário de segurança global, levando em conta, entre outras coisas, os impactos provocados pelas mudanças climáticas.

Desde 1953, o relógio não está tão perto do “apocalipse”. Ocorre que quem faz o alerta são 14 cientistas – especialistas em energia nuclear, desarmamento, armas ou alterações climáticas – liderados por Lynn Eden, Investigadora no Centro para Cooperação e Segurança Internacional, da Universidade de Stanford, EUA. Esta apreciação é feita também por um painel de cientistas que inclui Freeman Dyson, Brian Greene, Stephen Hawking ou Martin Rees. Entre eles, há 15 cientistas laureados com o Prémio Nobel, como Steven Weinberg, Nobel da Física de 1979. Todos calculam se a humanidade está mais próxima ou mais longe de se autodestruir.

E as abelhas, coitadas, talvez sejam as primeiras vítimas de tantos desmandos.

Fonte: G1.

ALERJ

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