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Impactos ambientais da era Trump

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Impactos ambientais da era Trump , por Everton Carvalho

Por Everton Carvalho*

Analistas e ambientalistas americanos estão pessimistas sobre o futuro do Acordo de Paris para o Clima – COP 21 após a eleição de Donald Trump para presidente dos Estado Unidos da América – USA. Esta surpreendente eleição traz um impacto direto sobre a Conferência da Marrakesh (Marrocos) – COP22 iniciada no dia 7 de novembro, e que gerou uma expectativa positiva após a entrada em vigor do acordo do clima em 4 de novembro.

A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) divulgou que o tratado conta com a adesão de 73 Estados-membros respondendo por 56,87% das emissões.

A eleição de Trump sugere que o compromisso dos Estados Unidos com um acordo global sobre o clima, assinado por Obama em setembro, poderia ser encerrado e seus conselheiros já estariam elaborando documentos para subsidiar decisões sobre o tema logo no início do mandato.

Uma das proposta em análise envolve submeter o acordo ao Senado para uma votação. Esse cenário pode parecer mais atraente, uma vez que os republicanos conquistaram maioria naquela casa.

Outro cenário poderia envolver a retirada da assinatura dos EUA do acordo, que seria a opção mais imediata, pois dependeria somente de um ato administrativo de Trump.

Trump também se comprometeu em revogar o Plano de Energia Limpa, o regulamento de referência de Obama para reduzir as emissões de dióxido de carbono no setor elétrico em 32% nos próximos 13 anos.

Os Estados Unidos desempenharam um papel fundamental na finalização do Acordo de Paris, firmando  um acordo com a China para limitar suas emissões de gases de efeito estufa. Por este acordo, a China se compromete a divulgar o mais cedo possível sua estratégia para a redução das emissões, compromisso que já havia sido assumido pelos EUA. Os planos dos EUA em promover energias renováveis num patamar de 100 Gigawats em 5 anos e da China em reduzir sua intensidade energética entre 15% e 18%, o que resultaria em uma participação de renováveis de 15% na matriz energética em 2020, estão literalmente ameaçados.

Uma retirada dos EUA do acordo do clima poderia induzir uma retirada imediata da China, pois as condições de cooperação não seriam mais válidas, o que implicaria na desvantagem competitiva da China, não só na área energética, mas também na indústria e agricultura. Esta hipotética retirada conjunta inviabilizaria imediatamente o Acordo de Paris, pois juntos os dois países representam quase 40% das emissões e assim o Acordo só contaria com a adesão potencial de países com 20% das emissões, o que impede a vigência do acordo.

O Brasil, que também exerceu papel relevante na construção do Acordo de Paris, precisa seriamente considerar este provável novo cenário de insolvência do referido acordo. Nós nos comprometemos a reduzir nossas emissões de CO2 em 37% até 2025 e em 43% até 2030 – um compromisso muito ambicioso dada às condições reais da nossa economia, em particular agora com o aprofundamento da crise.

O governo Dilma exagerou na dose, assumindo compromissos de difícil execução. Somente a crise do setor elétrico causada tanto por fatores climáticos como por equívocos regulatórios já retiram perto de 40% destes compromisso, pelo excesso de emissões de CO2 causado pelo uso intensivo de térmicas convencionais (diesel, gás natural e carvão) para compensar a redução dos níveis das hidrelétricas desde 2012, cenário que deverá se estender até 2020, no mínimo, pois tudo indica que novas usinas hidrelétricas de grande porte não serão implantadas, não só por motivos econômicos, mas também pro motivos socioambientais, como a suspensão dos projetos do Rio Tapajós.

Na área florestal, em termos do propalado desmatamento zero, a escassez de recursos para os órgãos fiscalizadores e a necessidade de aumentar a exportação de carne e grãos para compensar os efeitos da recessão, são indicadores de que o desmatamento não será facilmente contido, principalmente no bioma cerrado, com ênfase nos estados da Bahia, Goiás e Mato Grosso, estados nos quais as multinacionais do agronegócio estão investindo pesadamente na agricultura intensiva, com apoio de autoridades nos níveis federal, estadual e municipal, com a promessa de mais empregos, renda e impostos – em outras palavras, um verdadeiro complô anti-ambiental.

O Efeito Trump irá requere uma profunda reavaliação da nossa posição em relação ao Acordo de Paris, pois as metas irrealistas assumidas pela gestão Dilma e os impactos da nova postura de China e EUA nos pressionam para uma posição defensiva em termos de competitividade, que para ser revertida exigirá uma revisão completa da nossa política energética, industrial e agrícola, implicando inevitavelmente em recuos e rearranjos no nosso sistema produtivo e nas políticas públicas de proteção ambiental e redução das emissões dos gases do aquecimento global – é mais um complicador para a crise econômica brasileira.

* Everton é engenheiro, Presidente da Abides, Diretor da Câmara de Comércio Brasil/Bolívia da ACRJ, Secretário Executivo Adjunto da Federasur e pesquisador Abides/Niepe-UFMT

ALERJ

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