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A responsabilidade da nossa geração

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Por Fabio Feldmann*

A partir da década de 1950 a Humanidade alcançou padrões de consumo inéditos, propiciando inegável progresso material. É difícil imaginar que, na época de nossos pais e avós, as cidades conviviam com bondes e trens, sendo o automóvel relativamente escasso, com exceção de algumas cidades americanas. A agricultura consistia em poucos produtos, sem acesso à tecnologia de fertilizantes, adubos e pesticidas. Na área de comunicação, assistimos à expansão dos telefones, telex, rádio e televisão.

Nas décadas de 1960 e 1970, constatou-se que esta acentuada industrialização e o aumento do consumo trouxeram um preço enorme ao meio ambiente em termos de poluição e finitude dos recursos naturais. Na década de 1970, o livro “Os Limites do Crescimento” faz um alerta sobre as ameaças ao planeta. Em 1972, as Nações Unidas organizam a primeira grande Conferência sobre o Meio Ambiente, em Estocolmo, denominada “O Homem e a Biosfera”, que afirmou que os processos tecnológicos e socioeconômicos associados ao “desenvolvimento” estavam comprometendo a qualidade de vida na Terra. A cientista Rachel Carson, em seu livro “Primavera Silenciosa”, faz um aviso sobre o impacto dos agrotóxicos no meio ambiente. Com isso, inicia-se uma consciência mundial sobre a civilização do consumo.

Foi apenas na década de 1980, com a constatação da destruição da camada de ozônio, que as críticas se materializaram numa prova incontestável de que a Humanidade é capaz de provocar alterações dramáticas no planeta. Mais recentemente, alguns cientistas passaram a afirmar que estamos vivendo na era do Antropoceno, sendo que a Humanidade passou a exercer uma “força geológica” sobre o planeta e os sistemas vivos que o sustentam.

Por conta dessas ações, a ideia dos limites planetários (planetary boundaries) tem ganhado força, sendo que muitos cientistas já afirmam que precisamos nos preparar para cenários extremamente graves e com conseqüências dramáticas. Trabalhos científicos apontam a existência dessas fronteiras planetárias, valendo destacar um deles, publicado na revista Nature (Vol. 461 – 24/09/2009), sendo um de seus autores o Diretor Executivo do Stockholm Environment Institute Johan Rockstrom.

Os autores do estudo identificaram nove processos em que é preciso definir limites planetários, concluindo que três deles já tiveram seus limites transgredidos: mudança do clima; taxa de perda de biodiversidade (terrestre e marinha) e interferência no ciclo do nitrogênio. O uso mundial de água doce, a mudança no uso da terra, a acidificação dos oceanos e a interferência no ciclo do fósforo já estão chegando aos seus limites.

Diante desse cenário, há um grande esforço na tentativa de se quantificar os impactos que causamos no meio ambiente. Surge então a ideia das pegadas ecológicas, desenvolvidas primeiramente por Mathis Wackernagel, com o objetivo de revelar o que os indivíduos, as empresas, as cidades, os países promovem nas suas práticas cotidianas. Hábitos alimentares, escolhas sobre roupas e meios de transporte, aquisição de eletrodomésticos, dentre outras coisas, têm impactos locais e globais, sendo que o mais visível hoje em dia é o representado pelo aquecimento global.

A nossa geração detém maior responsabilidade em relação ao futuro do planeta. Os estudos científicos mais importantes apontam para a necessidade de uma redução dramática do lançamento dos gases de efeito estufa nas próximas três décadas. Caso isso não ocorra, a alteração do sistema climático pode comprometer a produção de alimentos, gerar desastres naturais de grande envergadura, exigir o reassentamento de populações de zonas costeiras...

Em palavras simples, temos que mudar radicalmente os padrões de consumo hoje praticados, entendendo que o paradigma de consumirmos sempre mais não traz bem estar e felicidade. Muito pelo contrário: destrói a capacidade de manutenção dos processos naturais e, do ponto de vista social, aumenta a desigualdade. A sustentabilidade e o desenvolvimento sustentável significam criar condições para que possamos repensar a ideia de que o crescimento econômico em si é capaz de promover a satisfação das necessidades materiais e imateriais da nossa sociedade.

O automóvel, principal símbolo do século passado, não atende a exigência de mobilidade nos centros urbanos. Ao contrário: as cidades estão cada vez mais congestionadas e poluídas e os jovens estão com o olhar mais atento às opções de transporte público e não motorizado. A bicicleta e o “andar à pé” permitem que as pessoas se desloquem e usufruam de modo diferente da paisagem urbana. Os aplicativos digitais permitem que se estimule cada vez mais o que se chama de economia compartilhada. Nessa mesma direção, a ampliação da energia solar permite a autosustentabilidade e a geração de receita pela comercialização dos seus excedentes.

Se é verdade que a Humanidade ultrapassou a capacidade dos complexos ecossistêmicos de continuar a prover serviços ambientais e seus correspondentes recursos naturais, também é inegável que existe em curso uma revolução de valores e imposição de novos estilos de vida. Isso configura a esperança de que a nossa geração será capaz de deixar um legado de dignidade e sustentabilidade.

*Fabio Feldmann é administrador de empresas e advogado e ativista ambiental. Foi responsável pela elaboração do capítulo destinado ao meio ambiente na Constituição Brasileira.


Fonte: Museu do Amanhã.

ALERJ

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