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A relação do jornalismo com conflitos ambientais

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A Jornada de estudos ocorreu na UFRGS

texto e foto Laíse Feijó

Com a proposta de debater o papel social do Jornalismo para a democracia, considerando-o como um dos agentes no processo de comunicação de riscos e na cobertura dos conflitos ambientais, o Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM/UFRGS), realizou nos dias 16 e 17 de junho A Jornada de estudos sobre Jornalismo e Conflitos Ambientais.

O primeiro dia de evento abordou questões como Jornalismo e violações aos indígenas e ao meio ambiente, as especificidades do conflito ambiental e o jornalismo diante destes conflitos. O encontro ocorreu na quinta-feira (16), no Auditório 1 da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS e instigou os participantes a buscarem alternativas para o Jornalismo Ambiental que é feito hoje.

Jornalismo e violações aos indígenas e ao meio ambiente

O primeiro painel contou com a participação da jornalista Jéssica Mota, da Agência Pública. A profissional trabalha com jornalismo investigativo independente e já participou da produção de diversas reportagens que abordam a temática de conflitos ambientais. Além de explicar brevemente como funciona a Pública, Jéssica contou um pouco sobre o Especial Tapajós, trabalho no qual a jornalista passou 20 dias em campo para retratar os conflitos da demarcação de terra indígena na Amazônia.

“Nós começamos com o projeto de pré apuração, onde levantamos o que já tinha saído na mídia a respeito do conflito, buscamos documentos e informações sobre o projeto do governo de demarcação das terras. Após, houve um planejamento de campo, onde fizemos contato prévio com as fontes e organizamos toda a viagem”, contou Jéssica. A repórter destaca que mesmo antes da viagem a equipe já tinha em mente todos os materiais que seriam produzidos, o que ajudou na hora da apuração.

A equipe de reportagem, formada por ela e mais dois colegas, passou 20 dias em contato direto com a tribo na Amazônia, ouvindo reivindicações e acompanhando atos de protesto contra atitudes do governo. “Diante do desafio desta pauta, a maior dificuldade que tivemos foi com o retorno das fontes oficiais, que não respondem ou não querem falar. Isso aconteceu mais uma vez, recentemente, quando fiz uma reportagem sobre desastres ambientais. É uma característica comum em pautas ambientais, pelo menos pra mim”, ressalta Jéssica Mota. Confira o especial Tapajós completo em http://apublica.org/especial-tapajos/.

As especificidades do conflito ambiental

O segundo painel trouxe os pesquisadores Gitana Cardoso da Silveira, doutoranda o PGDR/UFRGS, e o Prof. Dr. Rualdo Menegat, do Instituto de Geociências da UFRGS. Ambos apresentaram suas pesquisas a fim de mostrar as especificidades de um conflito ambiental.

Para Rualdo Menegat, um dos maiores problemas do planeta hoje são as grandes cidades, que tomam o lugar na natureza. “Cidades que crescem por todos os lados são emaranhados. Tornam-se organismos complexos e difíceis de controlar”, diz. Além disso, o professor ressalta que cada cidade contemporânea tem uma cegueira quanto ao meio ambiente. Para ele, a cegueira de Porto Alegre é o Rio Guaíba, que cada dia está mais depredado e nada se fala sobre isso.

971-2Painel tratou das especificidades do conflito ambiental (Foto: Laíse Feijó)

“Vivemos hoje em uma era de muita informação. Porém, muita informação também é ruído. Mesmo com toda essa gama de conhecimento, há uma cegueira em torno de problemas ambientais. Existe hoje um esforço urbano para eliminar a natureza que “atrapalha” o crescimento das cidades e ninguém atenta para isso”, disse Menegat.

Ao concluir sua participação, o professor destacou que, para curar essa cegueira em relação aos problemas ambientais, são necessários: conhecimento, programas de gestão social e ambiental, participação cidadã e uma educação baseada no local onde se vive.

Gitana Cardoso da Silveira apresentou sua pesquisa “Conflitos ambientais no Portal da Barra”, realizada em Pelotas entre 2012 e 2014, para a obtenção do título de mestre. Consiste em uma pesquisa etnográfica sobre um conflito territorial entre pescadores e interesse privado.

“Com a especulação imobiliária, a área em questão chamou a atenção de empresas privadas. A prefeitura, por sua vez, decretou que o local era de risco, removendo os moradores de lá. O risco, porém, era apenas para as famílias. Os empresários seguiram construindo”, conta Gitana. Em seu trabalho ela foi ao campo para ouvir o que a população ribeirinha tinha a dizer sobre o caso, buscou a fala das autoridades e empresários e entendeu que se tratava de um conflito ambiental.

“A prefeitura justificava a remoção das famílias com o argumento de que elas colocavam em risco várias espécies que ali viviam, como aves e peixes. Mas por outro lado descarregavam ali o lixo de todo bairro e permitiam que um aterro fosse feito, algo que também colocaria os animais em risco, Sendo assim, não fazia sentido”, ressalta a pesquisadora.

971-3Terceiro painel abordou o tema “jornalismo diante dos conflitos ambientais” (Foto: Laíse Feijó)

O último painel do dia recebeu a Profa. Dra. Márcia Amaral, da UFSM, e o jornalista Marco Wissheimer, do Sul 21. Eles falaram sobre a relação da mídia com os conflitos ambientais, e como eles são retratados, ou não, pelo jornalismo.
Márcia Amaral apresentou dados de sua pesquisa na área, onde analisou, entre 2011 e 2013, a abordagem de acidente e conflitos ambientais em quatro revistas brasileiras com periodicidade semanal. “Pude perceber uma cobertura bastante focada no dia dos acontecimentos. Existe uma grande dificuldade em se trabalhar o antes e o depois destes episódios”, relata a pesquisadora.

Além disso, o trabalho de Márcia dá conta de que a maioria das reportagens buscam por fontes que descrevam os fatos com detalhes, utilizando o fator sentimental do acontecimento, através de uma opinião fragilizada. “O potencial político e crítico das fontes não sai na mídia. É feita uma espécie de interdição das fontes afetadas. Um exemplo é o vídeo que vazou recentemente na internet durante o desastre de Mariana. Uma equipe da Globo entrevistava um senhor sobre o fato e parou de gravar quando ele acusou a Samarco de saber que a tragédia aconteceria”, explicou a professora.

As pesquisas apontam ainda que nestes veículos a acusação é feita, normalmente, por fontes especializadas, enquanto as fontes autorizadas dão opiniões ao invés de apresentar soluções.

Já o jornalista Marco Wissheimer trouxe uma série de pautas que não entraram na mídia ou não receberam a devida atenção que mereciam, devido ao tamanho do impacto que terão. “Muitos projetos de lei, a maioria encabeçados por políticos do PP, buscam o fiz da rotulação de alimentos transgênicos, a pulverização aérea de áreas urbanas, o fim da licença ambiental, e nada se fala na mídia. Falta uma abordagem adequada no jornalismo sobre questões ambientais”, concluiu.

 

Fonte: www.unicos.cc

ALERJ

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