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A sustentabilidade marcha vagarosamente pelos currículos escolares

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Nos dias 1, 2 e 3 de abril, desembarcou pela primeira vez em Porto Alegre o Virada Sustentável, evento já consolidado há 11 anos em São Paulo. Dentro da extensa programação, o Seminário Virada Sustentável discutiu, entre outros enfoques, o ensino de temas sobre meio ambiente para jovens da geração Z, aqueles nascidos a partir do final da década de 1990. A reportagem acompanhou o debate e tenta desmistificar os paradoxos da ‘Educação para a Sustentabilidade’.

Wagner Miranda
Jornalismo Ambiental / Noite

Um desafio enfrentado por professores e alunos em sala de aula é a inclusão de temas ambientais nos currículos escolares. Há quem acredite que no laboratório, com a prática, se aprenda mais. Também, quem defenda a pesquisa científica como alternativa para buscar o engajamento dos estudantes em diversos assuntos, inclusive sustentabilidade.

O Seminário Virada Sustentável foi realizado pela primeira vez em Porto Alegre nos dias 1 e 2 de abril, no auditório Araújo Vianna, após 11 anos em São Paulo. Um dos paineis foi “Educação para a Sustentabilidade”, tema que vem sendo estudado em todo o mundo.

A chamada Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável, iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) durante os anos de 2005 e 2014, veio para solucionar essas incertezas, adicionando aos currículos escolares temas como ética, meio ambiente, pluralidade cultural, saúde, orientação sexual, trabalho e consumo. Mas, não foi isso que aconteceu.

Para a doutoranda em Educação em Ciências pela Ufrgs e professora do Instituto de Educação de Ivoti/RS, Ailim Schwambach, essa abertura, proposta pela Década da Educação, colaborou na problematização da prática de vida dos alunos, trazendo flexibilidade e abertura ao currículo para a reflexão sobre os problemas ambientais do mundo. Ailim participou do painel Educação para a Sustentabilidade, discutido durante o Seminário.

Entre as centenas de pessoas que acompanharam o painel, estava Lara Lutzenberger, filha do ativista José Lutzenberger. Ela avalia como fundamental a vivência de alunos com a prática ambiental. “Com isso, há envolvimento emocional, construção de conhecimento e empatia com a natureza”, ressalta Lara, diretora da Fundação Gaia, que atua na área de educação ambiental e na promoção de tecnologias, como agricultura regenerativa – ecológica –, manejo sustentável dos recursos naturais, medicina natural, produção descentralizada de energia e saneamento alternativo.

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Mudança de hábitos

Os estudos da educação para a sustentabilidade interessam aos jovens. Em Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre, vive a estudante Renatha Adrielle Rocha Fontanivem, 16 anos. Ela cursa o terceiro ano do Ensino Médio de segunda à sexta-feira pela manhã no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), onde faz parte de um reduzido grupo de alunos que se interessam pelo meio ambiente.

Há dois anos, Renatha matriculou-se em uma disciplina eletiva voltada para a educação ambiental. Ela afirma que, embora a turma fosse pequena com 15 alunos, quatro deles estavam ali por falta de opção e necessidade de cumprir carga horária pré-estabelecida pela instituição, observa a estudante. Os ensinamentos serviram para transformar alguns de seus hábitos, inclusive em sua casa, com a sua família.

Filha única, Renatha conta que aproveita os momentos com os seus pais, que, segundo ela, não tiveram a mesma oportunidade de estudar, para replicar os ensinamentos recebidos na escola.

“Depois que passei a ter contato com conceitos e práticas relacionados ao meio ambiente, confesso que mudei alguns dos meus hábitos. Passei a prestar mais atenção no que poderia ser feito, e, na minha percepção, isso vai desde reciclar o lixo da minha casa até fechar a torneira enquanto escovo os dentes”, exemplifica a garota.

A estudante, que se prepara para o vestibular no final deste ano, tece algumas críticas quanto ao incentivo da sua escola para assuntos ligados ao meio ambiente. Para ela, educação ambiental deveria ser disciplina obrigatória, e não eletiva, como é atualmente.

“Acho que o incentivo na minha escola é muito menor do que eu gostaria que fosse. Só tive aula de educação ambiental a partir do momento em que eles – escola – me ofereceram uma disciplina eletiva na qual eu escolhi por interesse próprio. Ou seja, não é nada que incentive os alunos a ter contato direto com assuntos do meio ambiente, mas sim algo que o próprio aluno escolhe sem conhecer”, afirma a jovem.

Na sua escola, Renatha é uma das poucas alunas a ter interesse pelas questões ambientais. Crédito: Arquivo Pessoal
Renatha Adrielle Rocha Fontanivem

Do auditório ao laboratório

A história de Renatha e de outros tantos estudantes vêm sendo analisada por especialistas, que tentam vislumbrar o caminho correto da educação para a sustentabilidade. Filósofo e professor de Psicologia da Educação da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Ufrgs, Fernando Becker, um dos painelistas do Virada Sustentável, defende que professores e alunos saiam das salas de aula para trabalharem em laboratórios, uma vez que, para ele, “são nos laboratórios que se produzem consciências atuantes, capazes de transformar a realidade”.

Becker exemplifica o seu argumento: “as práticas cotidianas da escola têm mais força transformadora que todos os discursos que ela profere. Se as aulas de Biologia de uma escola situada, por exemplo, à margem do Arroio Dilúvio, em Porto Alegre, são dedicadas, um ano inteiro, a repetir discursos prontos, sem nunca professores e alunos coletar amostras das águas desse arroio, levá-las ao laboratório, examiná-las e relatar o que encontraram, nada poderemos esperar em termos de ações práticas desse professor e desses alunos em prol de um ambiente sustentável”.

Com ampla bagagem de estudos, Becker foi também um dos palestrantes do painel Educação para a Sustentabilidade. Ele reforçou a sua concepção sobre uma “virada educacional sustentável”, que seria a mudança do auditório, enquanto sala de aula, para o laboratório, pois “é essa concepção que, traduzida em metodologia de aprendizagem ativa e de ensino igualmente ativa, poderá transformar as consciências e os comportamentos”.

De outro lado, o professor e pesquisador da Faculdade de Ciências Econômicas da Ufrgs, que lidera um grupo de pesquisa em Sustentabilidade e Inovação, Luis Felipe Nascimento, enxerga outros caminhos para o implemento de temas ambientais nos currículos. Para ele, o principal foco dos gestores educacionais deve ser na motivação que os professores terão ao trabalhar os temas relacionados ao meio ambiente.

Sensibilização e capacitação dos professores

“Obviamente que os espaços para discussão e conteúdos nos currículos não garantem nada. Da mesma forma que pouco vale ter um laboratório de informática que não é utilizado. Precisamos iniciar com a sensibilização e capacitação dos professores, para que estes trabalhem com os alunos de forma a mostrar que a sustentabilidade está no nosso dia a dia e ela torna a nossa vida melhor. A sustentabilidadade não é uma coisa chata como parece para alguns. Não é apenas ‘não pode isto’ ou ‘não pode aquilo’. A sustentabilidade é viver e fazer as coisas de forma saudável, responsável e que ajude a melhorar a vida dos demais. Quando descobrimos que ajudar os outros nos faz feliz, não queremos mais parar de ajudar”, reflete Nascimento, que coordenou o painel Educação para a Sustentabilidade.

Ao projetar o futuro, Ailim, a professora que também pesquisa, ressalta que durante a produção da sua tese de doutorado, entitulada O Eco Sujeito do Século XXI e sua (RE)ação ao consumo sustentável em diferentes níveis de ensino com alunos de Ivoti/RS,percebeu que os estudantes envolvidos com pesquisas, como, por exemplo, os que fazem o chamado ensino politécnico, do terceiro ano, abrangem a aplicação da sustentabilidade em uma área de conhecimento. A pesquisadora acredita que esta modalidade de ensino, que visa à pesquisa na escola, pode ser o caminho da educação para a sustentabilidade.

No Rio Grande do Sul, segundo informações da Secretaria de Educação Estadual, o ensino politécnico passou a ser implantado em 2012 para o primeiro ano do Ensino Médio. No ano seguinte, foi destinado ao segundo ano. E em 2014 chegou ao terceiro ano. Com a reestruturação curricular, originada em 2011 após intensos debates em conferências estaduais, as disciplinas foram articuladas a partir das áreas do conhecimento, como ciências humanas, ciências da natureza, linguagens e matemáticas e suas tecnologias. Com isso, a disciplina de educação ambiental acabou sendo implementada nos currículos, mas, em alguns casos, como disciplina eletiva.

Diante das questões trazidas pelos especialistas, Renatha, a aluna do Colégio de Aplicação, pode ainda ter esperança de ver a sua escola e seus colegas engajados nos temas ambientais. A jovem, que nesta reportagem representou os mais de 57 milhões de estudantes que estão nas salas de aula de todo o Brasil entre Ensino Básico e Superior, segundo dados de 2014 do Ministério da Educação, revelou ao final da entrevista concedida por whatsapp o que faria se tivesse o poder da mudança: “eu transformaria a ideia das pessoas sobre a importância do meio ambiente. Muitas vezes, vivemos situações que claramente são responsabilidade nossa, e acaba passando batido por nós não reconhecermos essa importância. Talvez não esteja tão claro que a responsabilidade de cuidar o meio ambiente é nossa, e, consequentemente, tudo que acontecer com ele, é de nossa responsabilidade, é reflexo das nossas atitudes”, vislumbra a jovem de 16 anos, ao defender um mundo mais sustentável.

Fonte: jornalismoambiental.uniritter.edu.br.

ALERJ

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