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Conhecendo para conservar: as baleias-de-bryde no Rio de Janeiro

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Por Adriana Alves Costa de Araujo1
e Liliane Lodi2

843Desenho da baleia-de-bryde elaborado por um aluno do 4º ano do Colégio Rede MV 1 – IcaraíDesde os primórdios o homem realiza à atividade de caça à baleia. Durante grande parte da história, as baleias foram tidas como mais um recurso natural inesgotável, fonte de produtos valiosos para o conforto e progresso da humanidade (PALAZZO; FLORES, 1999). A partir do século XIX, com o desenvolvimento do canhãoarpão as baleias foram caçadas sistematicamente para fins comerciais. Ao longo dos anos a exploraçãocomercial aumentou exponencialmente gerando um decréscimo no tamanho populacional de várias espécies e populações, que atingiram níveis extremamente baixos. No presente as baleiasestão protegidas por leis que aboliram a caça emvários países, incluindo o Brasil. No entanto, outras ameaças contemporâneas foram surgindo à medidaque a humanidade foi ocupando a costa e explorandoos recursos marinhos de forma exponencial.

A baleia-de-bryde (Balaenoptera edeni) apresenta uma distribuição circunglobal nas zonas tropicais e subtropicais. Trata-se de uma espécie parcialmentemigratória raramente alcançando regiões frias e subpolares, pois não migra para as áreas de alta produtividade no verão como as outras espécies de baleias geralmente o fazem.Habita regiões costeiras de maior produtividadebem como as áreas oceânicas. No Brasil existem registros confirmados entre o Rio Grande do Sul e a Bahia, Paraíba e Maranhão (LODI; BOROBIA, 2013).

No estado do Rio de Janeiro, B. edeni pode ser observada em áreas próximas da costa ou às ilhas costeiras, especialmente na primavera e verãoque estão associadas à sardinha-verdadeira (Sardinella brasiliensis) que se aproxima da costa parareproduzir e que é um dos principais itens da suadieta. Por esse motivo, a baleia-de-bryde tambémé conhecida popularmente como baleia-sardinheira.Essa espécie apresenta um estilo típico de natação, se deslocando com súbitas acelerações emudança de direção em zigue-zague, tanto abaixoquanto acima da superfície (LODI; BOROBIA, 2013).

De acordo Reilly et al. (2008) a baleia-de-bryde encontra-se incluída na categoria “Deficiente em Dados” segundo o critério de classificação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, Versão 2015.4). Pouco é conhecido no Brasil sobre seu padrão de distribuição e movimentos.

O projeto de informação ambiental intitulado Conhecendo para conservar: As baleias-de-bryde no Rio de Janeiro foi elaborado devido ao aumento das avistagens das baleias- de-bryde em águas costeiras do Rio de Janeiro e de Niterói nos últimos dez anos (LODI; TARDIN, 2014) e as ameaças potenciais as quais a espécie vemsofrendo tais como a poluição das águas da Baía de Guanabara e do Emissário Submarino de Ipanema, redes de espera colocadas em áreas onde asbaleias se deslocam, risco de colisão com embarcações, distúrbios e molestamento provocando por embarcações e motos aquáticas (LODI; TARDIN, 2014)

O projeto de Educação Ambiental não formal intitulado Conhecendo para conservar: As baleias-de-bryde no Rio de Janeiro reitera a importância da informaçãoambiental na interatividade, articulação e exercício da cidadania contribuindopara a formação de uma nova consciência, valores e cultura ambiental, pois quanto maior acesso a sociedade tiver as informações ambientais qualificadas,maiores serão as chances de um desenvolvimento global sustentável.

Entende-se como Educação Ambiental: “O processo por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atividades e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vidae sua sustentabilidade”, segundo o artigo 1º da Lei Nº. 9795, de 27 de abril de 1999 (BRASIL, 1999). Nesta lei a Educação Ambiental não formal referese às ações e práticas educativas voltadas à sensibilização da coletividadesobre as questões ambientais e à sua organização e participação na defesa da qualidade do meio ambiente. A aprovação desta lei e do Decreto FederalNº. 4.281, de 25 de junho de 2002, estabeleceram a Política Nacional deEducação Ambiental (PNEA), trazendo grande esperança para educadores,ambientalistas e professores. A trajetória da Educação Ambiental brasileiraapresenta a necessidade de universalização dessa prática educativa por toda a sociedade (LIPAI; LAYRARGUES, 2007).

A Educação Ambiental não é uma área de conhecimento e atuação isolada. Seu propósito é de formar agentes capazes de entender a interdependência dos vários elementos que compõem a cadeia de sustentação da vida, as relações de causa e efeito da intervenção humana nessa cadeia, engajar-se na prevenção e solução de problemas socioambientais e de criar formas de existência maisjustas e sintonizadas com o equilíbrio do planeta. O direito ambiental, portanto,tem uma dimensão humana, ecológica e econômica que se devem harmonizar sob o conceito de desenvolvimento sustentado (BESSA, 2000).

O presente projeto tem como objetivo geral levar o conhecimento sobre a distribuição, bioecologia, comportamento e ameaças potenciais as quais estão sujeitas às baleias-de-bryde às crianças do 4º e 5º ano do ensino fundamentalde Niterói, Rio de Janeiro, através de atividades de Educação Ambientalnão formal. Os objetivos específicos incluem: 1) esclarecer sobre a importância ecológica da baleia-de-bryde nos ecossistemas marinhos, 2) reconhecerque as baleias não se tratam de um recurso natural renovável e que as ameaças atuais bem como o retorno da caça comercial podem ter consequênciasirreversíveis para esses animais; 3) compreender a responsabilidade eo papel do cidadão para a manutenção e conservação do ambiente marinho,4) desenvolver atividades lúdicas despertando a curiosidade a respeito d assunto abordado, chamando a atenção das crianças para a importância daconservação das espécies e, 5) verificar o grau de assimilação e compreensãodo tema proposto através da análise de um questionário estruturado.

Este projeto busca através da integração com a comunidade escolar desenvolver habilidades e conhecimentos aplicáveis à realidade local, enfatizando a importância do indivíduo e da comunidade tanto na conservação das baleia-de-bryde quanto dos ecossistemas marinhos.

Materiais e Métodos
O projeto foi realizado em escolas particulares do município de Niterói, Rio de Janeiro. As atividades foram desenvolvidas com alunos do 4º e 5º anos do ensino fundamental, numa faixa etária compreendida entre 8 e10 anos. Foramselecionadas 5 escolas particulares e a proposta do programa de EducaçãoAmbiental não formal e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecidoforam encaminhados às secretarias dos estabelecimentos de ensino para oconsentimento da direção. O 4º e 5º ano do ensino fundamental foram escolhidospara fazerem parte da realização desse projeto por serem os anos deescolaridade nos quais uma das autoras leciona e por acreditar que as crianças são multiplicadoras de opiniões, e não têm conceitos formados a respeito de vários assuntos, diferentemente dos adultos.

Foram ministradas palestras utilizando slides abordando aspectos sobre a biologia, ecologia e às ameaças as quais estão sujeitas as baleias-de-bryde. Emseguida, foram efetuadas atividades lúdicas com desenhos e uma dinâmicacom barbante: as crianças esticaram o barbante até atingir o comprimento da baleia-de-bryde (o barbante foi marcado a cada 1 metro), depois colocaram o barbante esticado no chão e completaram com outros pedaços de barbantea figura da baleia-de-bryde. A seguir os alunos entraram “na baleia-de-bryde de barbante”, dando as crianças à verdadeira noção do tamanho desse animal(15 metros). Após as atividades lúdicas foram aplicados os questionários estruturados com 10 perguntas, sendo 9 fechadas e uma aberta, nas quais as respostas foram analisadas quali-quantitativamente a fim de verificar os resultadosda assimilação das palestras e o entendimento das crianças sobre aimportância da conservação da baleia-de-bryde. As visitas em cada turma da unidade escolar tiveram a duração em média de 1 hora e 30 minutos.

As atividades de Educação Ambiental não formal têm o objetivo de articular conceitos e práticas de atividades tradicionais e temáticas atuais favorecendo o aprender como processo interativo e estimulando a participação dosjovens nas questões ambientais.

Através da análise dos questionários, foi observado que os objetivos propostos pelo Projeto Conhecendo para conservar: As baleias-de-bryde no Rio de Janeiro foram alcançados de forma satisfatória, pois a maioria das crianças se mostrou interessada e preocupada com o meio ambiente além de compreenderem as informações repassadas durante as palestras e as atividades lúdicas. É importante repassar informações para o público infantil, pelofato de ser mais fácil trabalhar com crianças, pois ainda não tem conceitos formados em relação a diversos assuntos, diferentemente do adulto.

Através deste trabalho nas escolas notou-se que é possível haver transformação pela educação nosentido de conservar as baleias-de-bryde, e que amaioria das crianças envolvidas no projeto será multiplicadora das informações obtidas para seus pais, amigos e vizinhos, fazendo com que mais pessoassaibam a respeito da necessidade da conservaçãodas baleias-de-bryde mediante seu papel ecológicono ambiente marinho.

O projeto corrobora a importância da informação ambiental na interatividade, articulação e exercício da cidadania contribuindo para a formaçãode uma nova consciência, valores e cultura ambiental, pois quanto maior acesso a sociedade tiver as informações ambientais qualificadas, maiores serão as chances de um desenvolvimento global sustentável.

A continuidade desse projeto é importante pelo fato de ter abrangido apenas cinco escolas, funcionando como um projeto piloto que pode ser estendido as demais escolas de Niterói, em especial as municipais e estaduais localizadas próximasas de colônias de pesca. Além disso, a EducaçãoAmbiental é um trabalho que deve ser realizado em longo prazo, dando subsídios para o cidadão alicerçar suas ideias, habilidades, atitudes e ter a consciência da importância de se preservar o meio ambiente, não só durante a sua existência, mas também pensando em assegurar um horizonte melhor para as futuras gerações.

1 Discente do Curso de Pós-Graduação em Biologia Marinha e Oceanografia Faculdades Integradas Maria Thereza.
2 Docente do Curso de Pós-Graduação em Biologia Marinhae Oceanografia Faculdades Integradas Maria Thereza.

REFERÊNCIAS

BESSA, P. A. Direito Ambiental. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2000.

BRASIL. Lei Nº. 9795/99 de 28 de abril em 1999. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 29 de abril de
1999. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/c civil_03/leis/l9795.htm>. Acesso em 13 de novembro de 2015.

LIPAI, M. E.; LAYRARGUES, P. P. Vamos cuidar do Brasil: conceitos e práticas em educação ambiental na escola. Brasília: UNESCO, 2007.

LODI, L.; BOROBIA, M. Baleias, botos e golfinhos do Brasil: guia de identificação. Rio de Janeiro: Technical Books, 2013.

LODI, L.; TARDIN, R. Baleias-de-bryde: nômades do oceano. InforMar: v. 21, p. 8-10. 2014.

PALAZZO Jr., J. T; FLORES, P.A.C. 1999. Plano de Ação para a Conservação da baleia franca, Eubalaena australis, em Santa Catarina, Brasil. Projeto Baleia Franca – IWC/Brasil. 1999.

REILLY, S.B., BANNISTER, J.L., BEST, P.B., Brown, M., BROWNELL JR., R.L., BUTTERWORTH, D.S., CLAPHAM, P.J., COOKE, J., DONOVAN, G.P., URBÁN, J. & ZERBINI, A.N. 2008. Balaenoptera edeni. The IUCN Red List of Threatened Species 2008: e.T2476A9445502. Acesso em 17 de novembro de 2015.

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