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Afetadas pela escassez de água, indústrias já avaliam parar produção

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por Maria Martin

A indústria de São Paulo, cuja atividade de janeiro a junho caiu 8,7%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atravessa também o pior momento da crise hídrica. “Estamos chegando no fundo do poço e se os reservatórios, tanto o Alto Tietê como o Cantareira, não se recuperarem a prioridade absoluta vai ser o abastecimento humano, e aí vamos ter que parar a produção”, alerta a gerente do Departamento de Meio Ambiente, da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Anicia Pio. O setor, que consome 10% da água disponibilizada na região metropolitana, foi obrigado a reduzir em 30% a captação do insumo em Campinas em agosto e prepara-se para novas restrições nas regiões abastecidas pela Bacia do Alto Tietê, onde o governador Geraldo Alckmin,depois de ano e meio de crise, acabou de reconhecer oficialmente a gravidade do cenário abrindo assim a possibilidade de suspender captações de água do setor privado, tanto da agricultura como da indústria.

Com duas crises avançando de mãos dadas sobre o setor, a Fiesp diz não ter como calcular os efeitos de uma, a econômica, e de outra, a hídrica, mas Pio destaca o aumento do orçamento dedicado pelas empresas para garantir a qualidade do insumo. “A água captada nos rios piorou muito, a vazão se reduz e os poluentes acabam se concentrando. Temos casos de indústrias que gastam dez vezes mais do que gastavam antes para tratar essa água”, relata a gerente. A necessidade de investir mais em tratamento, no entanto, não é exclusiva de indústrias que precisam de água potável no seu processo produtivo, como a de bebidas, farmacêuticas ou a alimentar. “A água é tão ruim que qualquer indústria precisa de um tratamento para que fique em condições, da indústria de vidros à metalúrgica”, completa.

Embora calcular o impacto econômico do desabastecimento em São Paulo é difícil, Pio relata os efeitos sofridos pela indústria, responsável por 25% do PIB do Estado, em um cenário de abastecimento incerto. “Há empresas que mudaram de região e outras que não se instalaram. Houve quem decidiu transferir os investimentos dedicados na região para outras. Ninguém mais quer se instalar nestas bacias porque não conseguem licenciamento ambiental [para a captação de água], e nas empresas localizadas em regiões críticas [as abastecidas pelo Cantareira e o Alto Tietê, principalmente] pesa um item de segurança na hora de pedir financiamento: o sistema financeiro vê mais risco nelas. No final, essas regiões, não recebem nenhum novo investimento ao não ser que a produção não dependa de água”, relata Pio.

A preocupação dos bancos pela crise hídrica já foi exposta em várias ocasiões por um dos maiores especialistas em recursos hídricos do Brasil, o professor José Galizia Tundisi. “A crise hídrica afeta a economia até tal ponto que têm vários bancos preocupados pelos possíveis impactos, inclusive a inadimplência. As empresas dependentes da água no seu processos produtivo podem reduzir a produção”, afirma Tundisi. A agência de riscoStandard & Poors também dedicou um relatório em fevereiro aos efeitos de um possível racionamento energético e hídrico na qualidade do crédito. A agência acredita que as consequências devem ser limitadas, embora tenha reconhecido a dificuldade de “predizer o potencial impacto de um racionamento de água no setor”.

Pio acredita que a portaria publicada no Diário Oficial na semana passada, na qual é reconhecida a “criticidade” da crise hídrica na bacia do Alto Tietê, que abastece quase cinco milhões de pessoas, não é mais que um reconhecimento de uma realidade antiga. Cerca de 69% das indústrias contavam com poços artesianos, mas 14,7% deles tinham secado nos últimos meses, segundo um estudo desenvolvido pelo Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Educação Continuada, em parceria com o Núcleo de Economia Industrial e Tecnologia da Unicamp, realizada em novembro de 2014.

“O Governo declara oficialmente que existe uma crise porque a situação é de preocupação. Mas ele [o governador Geraldo Alckmin] sempre negou e passou o ano inteiro dizendo que não há racionamento. Mas da mesma forma que as pessoas ficam sem água à noite, aquela pequena indústria que depende da rede pública sofre também com esse racionamento horário”, afirmaPio que se reconhece “chateada” pela falta de compensação do Governo estadual com o setor. “Só se fala de cortar, caçar, restringir [captações], mas qual é a contrapartida? O Governo não fez as obras que devia fazer e agora nós [cidadãos e indústria] temos que pagar a conta? Vai ter fundos para socorrer o setor ou vamos todos embora de São Paulo”, questiona a executiva.

Fonte: El País

ALERJ

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