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Uma cobertura desatenta

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No dia 30 de junho, a presidente Dilma Rousseff, em visita aos Estados Unidos, anunciou, dentro do acordo bilateral com o país norte-americano, compromissos para o combate às mudanças climáticas no Brasil, com vistas, entre outras questões, a preparar o terreno político para a 21ª Conferência do Clima (COP 21), que acontece em Paris em dezembro

Duas dessas metas estiveram relacionadas à questão do desmatamento a primeira diz respeito a alcançar o desmatamento zero em 2030 e a segunda, a recuperar 12 milhões de hectares de florestas até aquele ano.

A imprensa, cobriu amplamente a visita e os anúncios. Na semana do fato (entre 26 de junho e 2 de julho) o projeto Mídia e Amazônia monitorou a produção da imprensa escrita por meio de 44 jornais das cinco regiões brasileiras e 4 revistas semanais. Neste universo, foram publicados 50 textos sobre essas metas nos principais jornais do país.

Pouco mais da metade deles (29) foram reportagens. Dessas, 65% estavam centradas na visita em si, e abordaram outros temas levantados pelos chefes de Estado para além das metas. As outras 34,5% focaram especificamente nos anúncios sobre os compromissos com mudanças climáticas e/ou desmatamento.

A ANDI realizou uma breve análise desses 29 textos e escutou a opinião de alguns especialistas sobre a cobertura jornalística. A conclusão é que, de maneira geral, não se conseguiu avançar para além do discurso oficial e, com isso, questões importantes como compromissos mais robustos e mais ágeis no combate ao desmatamento e às mudanças climáticas assumidos anteriormente ficaram de fora da imensa maioria das matérias publicadas.

“Os jornais mal conseguiram informar no outro dia o que tinha ocorrido. Alguns aos quais tive acesso apresentaram os compromissos como sendo pouco ambiciosos, mas sem muita explicação. O jornalismo, desnorteado pelas mudanças estruturais que vem enfrentando, precisa assumir logo um papel protagonista diantedeste que, tudo indica, será o principal desafio
do século XXI”, afirma Roberto Villar Belmonte, professor de jornalismo ambiental da UniRitter de Porto Alegre (RS).

No rastro do discurso

A principal evidência de que a imprensa poderia ter ido mais além está no fato de que quase três quartos dos textos (72,4%) se restringiram ao discurso oficial: reproduziram a entrevista e os anúncios de Dilma e Obama.

Apenas sete matérias (24,5%) recorreram à opinião ou análises de outras fontes, como organizações da sociedade civil, especialistas, universidades ou setor privado. Isso significa também que só umquarto do noticiário apresentou opiniões divergentes – um dos princípios básicos do jornalismo.

Na percepção de Adriana Ramos, coordenadora do Programa de Política e Direito Socioambiental do Instituto Socioambiental, a falta de diversificação contribuiu para a falta de contexto.“A maioria das reportagens se limitou a reportar o que foi dito ou escrito na declaração apresentada durante a visita da presidente Dilma aos EUA. Elas mencionam as metas e a relação do acordo de cooperação com a proposta que o Brasil deve apresentar à Convenção, mas não analisam o que significam os compromissos sinalizados em relação à cobertura florestal brasileira e às possibilidades dadas pela legislação e pelas políticas, incluindo os desafios do País para o alcance deste objetivo e os investimentos necessários”, diz.

 


“As temáticas ambientais requerem ao jornalista o domínio de certos conceitos para evitar erros. Um deles, observado nesta cobertura foi o de confundir a restauraçã o florestal com florestas plantadas ou silvicultura, comparando números que são incompatíveis e confundindo o leitor”Osvaldo Stella, diretor adjuntodo Instituto dePesquisa Amb ientalda Amazônia - IPAM


 

Compromissos sem contexto

De fato, a pressa ou a facilidade de seguir o discurso oficial trouxe consequências. Como os compromissos brasileiros assumidos anteriormente ficaram fora da fala da presidente, também ficaram de fora das matérias.

“O anúncio, além de não trazer novidades, é um enfraquecimento de compromissos anteriores. Por exemplo, no Plano Nacional de Mudanças Climáticas de 2008, foi criada a metade atingir o Desmatamento Líquido Zero (queé quando o desmatamento é equivalente ao reflorestamento)até 2015”, explica André Nahrur,coordenador do programa Mudanças Climáticase Energia, do WWF-Brasil.

A grande maioria (82,5%) dos textos limitou-se a reproduzir a fala sobre a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030. Além disso, um total de 55,2% das matérias que cobriram a visitan mencionaram o compromisso firmado pela presidente de reflorestamento de 12 milhões de hectares até aquele ano.

“Um dos jornais que acompanhei fez a comparação entre a meta de restauro de 12 milhões de hectares com o passivo do Código Florestal que é de 24 milhões de hectares, oferecendo uma visão mais precisa do alcance da meta. Isso foi muito positivo e poderia ter ido ainda além ao trazer um exemplo regional sobre as condições e limitadores para cumprir essa meta. As temáticas ambientais requerem ao jornalista o domínio de certos conceitos para evitar erros. Um deles, observadonesta cobertura foi o de confundir a restauração florestal com florestas plantadas ou silvicultura, comparando números que são incompatíveis e confundindo o leitor”, avaliou Osvaldo Stella, diretor adjunto do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia - IPAM.

Porém, de acordo com a análise da ANDI, nenhum dos textos tocou no assunto da meta para2015. Ou comparou a meta do desmatamento até 2030 com o compromisso firmado no Plano.

Além disso, segundo Nahrur, o compromisso de recomposição de 12 milhões de hectares não é suficiente. “Somente na Amazônia temos um passivo de 21 milhões de hectares e ainda umataxa atual de desmatamento de 500 mil hectares”, explica. Carlos Rittl, secretário-executivo do Observátorio do Clima, aponta ainda que essa meta está muito aquém do que própria lei diz: “Apenas com o Código Florestal, é possível recuperar o dobro da área em 20 anos”, afirma.

As matérias esqueceram de mencionar, também, outro compromisso brasileiro, anunciado internacionalmente há pouco mais de cinco anos, no final de 2009, e bastante celebrado pela imprensa na época: o de reduzir o desmatamento da Amazônia em 80% até 2020. Só um texto abordou essa questão.

A Política Brasileira de Mudanças Climáticas, onde se concentram esses e outros compromissos, foi mencionada em apenas um texto. Já o Código Florestal aparece em 37,6% do material publicado.

“Os jornais que se sobressaíram na cobertura, analisaram os números em relação a essas legislações e políticas nacionais, como o Código Florestal e o Planaveg, permitindo um melhor entendimento do que realmente quer dizer o que foi anunciado, além de ouvirem a opinião de especialistas, trazendo outras fontes para o texto e produzindo matérias mais completas e compreensíveis”, diz Adriana Ramos, do ISA.

Ao perder a chance de avaliar a real ambição das metas propostas e contextualizar a questão, a imprensa acabou por esvaziar um dos debates mais importantes do momento. Não é tarefa fácil. Mas é essencial.

“No Brasil, não é possível discutir política climática sem falar do necessário combate ao desmatamento, bandeira antiga do movimento ambientalista. Em função dos seus impactos econômicos, ecológicos e sociais, a mudança do clima já deveria ter adquirido um valor-notícia mais robusto nas redações brasileiras. As características do tema – como a complexidade técnica, a incerteza científica e os processos longos – ainda conspiram contra a possibilidade de uma cobertura mais permanente sobre causas, consequências e possíveis soluções, e não apenas pautada nos eventos da agenda internacional”, afirma o professor Roberto Villar.

A presente análise sinaliza a necessidade do jornalismo aprofundar a cobertura do tema de forma a oferecer ao leitor informações contextualizadas que comparem o discurso oficial por parâmetros de avaliação pautados em compromissos já assumidos pelo governo ao longo dos anos. E projetem cenários com base no cumprimento desses compromissos e no vasto conhecimentojá disponível sobre alternativas viáveis de desenvolvimento da região.


Ao perder a chance de avaliar a real ambição das metas propostas e contextualizar a questão, a imprensa acabou por esvaziar um dos debates mais importantes momento. Não é tarefa fácil. Masé essencial


 Fonte: http://midiaeamazonia.andi.org.br

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