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“A encíclica do Papa sobre o clima vai exercer um papel importante”. Entrevista com Jeffrey Sachs

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Nunca antes um documento oficial de um papa atraiu tanta atenção no campo político e econômico antes mesmo de sua publicação como está ocorrendo agora nos Estados Unidos com a encíclica sobre o meio ambiente de Francisco.

Por Elisabetta Piqué, tradução é de André Langer.

Para a ONU e os principais grupos ambientalistas, trata-se de um documento mais que importante. Por quê? Porque, como indica majoritariamente a ciência, para Francisco a mudança climática, que afeta sobretudo os mais pobres, foi causada principalmente pelo homem. E existe o dever moral de enfrentá-la através de uma ação global conjunta. Mas, nos Estados Unidos, há um pequeno grupo de direita, muito poderoso e vinculado à indústria do petróleo e do carvão, que se opõe. Foi o que explicou, em uma entrevista ao La Nación, o prestigioso economista norte-americano Jeffrey Sachs, diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia, que na terça-feira foi um dos principais oradores em uma reunião sobre o tema no Vaticano.

Muitos concordam com a urgência de fazer algo para enfrentar a mudança climática e esperam que a reunião de Paris de dezembro próximo marque um giro crucial para o seu controle. O que você espera da encíclica “verde” do Papa?

A encíclica do Papa será um chamado claro a um propósito moral e à ação, para que a economia mundial seja segura. Segura para os marginalizados, segura para a Terra e segura para as gerações futuras. Creio que terá um papel importante para que as pessoas em todo o mundo sejam mais conscientes sobre tudo o que está em jogo ao enfrentar com atraso a mudança climática, assim como o combate da pobreza extrema. A encíclica chegará logo e depois haverá uma série de importantes negociações: em julho, sobre o financiamento para o desenvolvimento; em setembro, para a adoção de metas de desenvolvimento sustentável; e, em dezembro, para o controle da mudança climática induzido pelo homem. Creio que a encíclica do Papa terá um papel importante para ajudar o mundo a encontrar um acordo justo nestas três negociações de alto nível.

Quais são os maiores obstáculos para um acordo?

O obstáculo mais importante é o que o Papa chama de “globalização da indiferença”. Fracassamos em nos conscientizar suficientemente sobre tudo o que está em jogo, porque somos bombardeados por muitas imagens, muita confusão e muita propaganda da indústria do petróleo e outras grandes empresas.

Em muitas partes do mundo é evidente que é o homem – com suas indústrias que poluem, desmatamento, etc. – a principal causa da mudança climática, mas nos Estados Unidos há uma enorme tensão entre quem acredita nisso e quem pensa que não seja assim e que a mudança climática se deve a causas naturais... Você, por exemplo, acredita que se deve ao homem?

Evidentemente, a imensa maioria dos cientistas aponta nessa direção, não há dúvida.

Mas por que nos Estados Unidos segue havendo gente que pensa que não é assim? É pelos grandes lobbies da indústria do petróleo?

Dois terços dos norte-americanos entendem o tema de forma apropriada. Mas isto não significa que a nossa política seja apropriada, porque há um pequeno grupo que tem muito poder político: os muito ricos, o poder de parte da indústria do petróleo, da indústria do carvão, e eles pagam os nossos políticos. O sistema político norte-americano está muito corrompido pelo dinheiro. Evidentemente, algo disso foi legalizado, mas segue corrompendo, com um impacto imoral.

Qual é a posição de Obama?

Obama é a favor de uma forte ação para enfrentar a mudança climática. Está do lado certo. Mas está sofrendo fortes ataques do setor do carvão e setores privados com interesses no petróleo, como os irmãos Koch, que fomentam muitíssima desinformação. A verdade é que para um norte-americano comum o clima está mudando: há seca na Califórnia, há grandes temporais... Mas a propaganda é forte nos meios de comunicação de Rupert Murdoch, na indústria dos irmãos Koch, nos lobbies do carvão.

É por isso que os grupos conservadores criticam o Papa? Por se meter, com sua encíclica, em um tema que supostamente não lhe compete?

Exato! Depois há uma segunda parte, que é a ideologia: alguns norte-americanos que são ideologicamente libertários. Querem ser deixados sozinhos, não querem que o governo faça nada nem que lhes diga algo sobre suas emissões de carbono ou coisas do gênero. É um grupo muito pequeno, mas muito barulhento, com voz forte no Partido Republicano. Eles não querem ouvir o que diz a ciência, porque diz algo que vai contra a sua ideologia.

 

Fonte: IHU Online.


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