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Filósofo explica porque deixamos de sentir prazer na vida

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Por Denise Meira Do Amaral

622capa de “prazeres ilimitados”, de Fernando Muniz, pela editora nova FronteiraÉpela comparação com a cultura grega antiga que Fernando Muniz traça um perfil do prazer em nossa sociedade contemporânea no novo livro Prazeres Ilimitados, lançado no mês passado. Segundo o filósofo, apesar de vivermos em um mundo hedonista – onde a busca do prazer é o mote principal –, estamos incapacitados de senti-lo.

Glamurama: O que é o prazer hoje?

Fernando Muniz: O prazer saiu de cena e se tornou uma certa compulsão, uma coisa que nunca se realiza. A sociedade exige sempre mais e mais, projeta para o futuro uma coisa que nunca ocorre. E essa antecipação provoca ansiedade, que vai adiando o momento da realização, e o prazer nunca acontece. O que existe é a voracidade, o consumo de tudo em volta, mas que não traz saciedade. O mundo contemporâneo está, ao contrário do se pensa, mais afastado do prazer. Quando o prazer passa a perder a importância, a vida passa a ser ameaçada. Muito do mal estar contemporâneo está ligado a essa incapacidade de viver o prazer.

Glamurama: Qual é o lugar do prazer na nossa vida?

Fernando Muniz: Apesar de vivermos em mundo hedonista, não temos nenhuma reflexão profunda sobre o prazer. O prazer hoje é tido como uma coisa que todo mundo acha que sabe. Como o prazer já é um dado, uma coisa óbvia, ele deixa de ser um problema, e, consequentemente, deixa de ser um objeto de reflexão. Já na Grécia antiga, o prazer foi objeto de muito questionamento.

Glamurama: Por que não conseguimos ter prazer de fato?

Fernando Muniz: Essa perda não é uma questão individual. Você não decide ter ou não ter um comportamento compulsivo. As sociedades estão organizadas desta forma. A incitação ao consumo, ao que vem depois, faz com que as relações humanas sejam provisórias. A fi la está sempre andando. O que você acabou de comprar já não tem importância alguma. As necessidades que você jamais teve, vai ter amanhã. Você não tem mais prazer nem com pessoas nem com coisas. Isso gera um buraco no mundo contemporâneo. É uma situação de frustração constante. Você vê, por exemplo, a ex-namorada do Mick Jagger, a L’Wren Scott [morta em março do ano passado]. Um dia ela está linda, namorando um cara famoso, e no outro, está enforcada. No mundo contemporâneo, a distância entre o sofrimento profundo e a alegria excessiva é quase nenhuma. A pessoa que dá uma gargalhada pode cair no choro.

Glamurama: Mas as pessoas parecem estar mais felizes hoje em dia, pelo menos nas redes sociais.

Fernando Muniz: É. Todo mundo parece feliz. As pessoas acham que elas precisam parecer assim, mas acabam parecendo mais histéricas do que felizes. Sem entrar nos aspetos positivos das redes sociais, as pessoas acabam expondo somente o que querem que as outras saibam dela. É sempre narcísico. As pessoas entendem que a vida delas tem valor porque ela mostra. É um esvaziamento da própria vida, uma incapacidade de se encontrar sentido. Já que as coisas não tem sentido, é preciso postar. A vida se dá pelas reações: se alguém curtiu ou não curtiu.

Glamurama: As redes acabam então preenchendo esse vazio?

Fernando Muniz: É um jeito de lidar com o esvaziamento, mas é provisório. A pessoa precisa postar outra coisa, e depois outra. Ela pode achar um namorado e, sem saber o que ela quer, posta uma foto dele. Então, ela começa a ver se aquilo pode fazer algum sentido, dependendo das reações dos outros. O valor é dado de fora e não por ela mesma.

Glamurama: Estamos passando por uma espécie de doença coletiva?
Fernando Muniz: Acho que sim. É uma espécie de patologia cultural, uma doença da nossa própria cultura. Não encontramos ainda os meios para que as pessoas se tornem satisfeitas.

Glamurama: E quais seriam os meios?

Fernando Muniz: São muitos. Os gregos faziam uma reflexão constante. No mundo contemporâneo já existe o caminho. Não existe a pergunta: “Como a minha vida pode ser maravilhosa?”. Isso não é uma questão. Para os gregos, era. Para você encontrar a justifi cativa da sua existência acho que a refl exão é o primeiro passo. Eu proponho no livro uma volta aos gregos, no sentido de recuperar as questões sobre o que é o prazer, qual é o lugar que ele tem na nossa vida e o que ele significa.

 

Fonte: Glamurama.

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